quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Alma gêmea
Olho para o céu, perdido, e busco-te no horizonte sem fim
Encontrar-te-ei nas margens devastadas, daquilo que já não pertence mais a mim
Todavia, miro os olhos em constelações aleatórias para te achar
E te imagino moldada tal qual imagina o terceiro ventrículo de meu coração.
Que distância nos separa? Quantos encontros anos-luz?
Cruzo à nado o oceano sem água. .
Olho cada mensagem dentro da uma garrafa
Realizo esforço hercúleo,
Depois regozijo-me com o sonho de uma realidade inverossímil.
E assim, volto a dormir.
Mas depois de algumas manhãs e noites seguidas,
Lá estarei eu na janela. À te procurar.
Para que então, num sonhado dia
Possamos nos perder juntos.
Escuridão
Céu escuro, que traga-me para dentro de si
Ao tentar expandir-me, sinto-me diminuído
Acolá onde as estrelas cintilam.
A visão termina nalgum lugar, algures, sem fim.
O Mistério assombra e também fascina.
O que seria ainda mais escuro do que a escuridão?
Ou seria ela própria também infinita?
Miro o horizonte-sem-fonte,
O começo entremeado com o fim.
Admoesta meus olhos para que não se percam afogados,
E traz a minha vista para dentro de mim.

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Pantomima de Palavras
Queria muito preencher esta página em branco
Mas não sei por onde começar
Existe algo firme como o raciocínio e lasso como o devaneio
Que paira entre o pensamento e o ato de se expressar.
Ah, se fosse fácil prescindir de meus julgamentos!
E olhar a folha e a caneta com um primeiro olhar.
Ir até o fundo da página. E desencavar...
Achar centenas de palavras como que num eflúvio,
Para com elas não pensar.
Talvez já tivesse atingido o objetivo, até o presente momento,
Ao descobrir um novo sentimento, inexprimível e sensível,
E então começar a divagar...
Pois o poeta é aquele que encontra as cores e texturas,
Para um quadro do qual não se pode pintar.
Botequim
Desce a cerveja gelada
Musa em forma de miragem,
Com gosto de rio.
Mar das emoções que não afogam
Cada gole com gosto de sede.
Oásis cor-de-sol,
Para os que miram o horizonte do deserto.
Copacabana
Já quase meia noite em Copacabana,
No percalço de seus passos ela, anda.
Ruminando com o vento, desperdiçando pensamentos
Nada a declarar sobre o que lhe encanta.

O céu raso, vestindo seu manto sombrio
As ondas do mar chouteiam, buscando lhe tragar
Mas em sua comunhão com o vento,
Não ha devaneio outro, sobre o qual ela queira pensar.

A mão da noite lhe toca os cabelos,
Apertando o vestido contra o seu esbelto corpo.
Nesta noite ela quer ser como o vento,
E sentir-se soprada sobre os outros.

A lua no céu, ponto cardeal dos desnorteados.
Luz fina que transforma escuridão em penumbra,
Mar impossível de ser tragado.

Todavia, ela ergue os olhos para o céu e segue caminhando
Vislumbra os mistérios do universo.
E enquanto caminha, segue decifrando-os
Apenas abstrai o que lhe chateia.

Na pedra do leme pára. E reflete:
Se saiu de casa para se fazer vista,
Ou para se fazer ida.

terça-feira, 21 de julho de 2015

Mar de estrelas

Um olhar de soslaio para o céu
Meus olhos perdem-se na finitude do indescritível
Minha razão pergunta: Será que Deus hoje me enganas?

Lá em cima tudo estático, firme e sublime
Não teriam ainda os sofrimentos da terra subido ao céu?
Que dia então teremos novas estrelas?

O opróbio da civilização arduamente nos atinge.
Que dia então chegarão os novos líderes?
Que trarão consigo as centelhas mortas das estrelas perdidas do céu.

Então, acorda e te olha no espelho
Busca suas fotografias mais recentes
Mira tua imagem lânguida e deprimente.

Depois olha para o céu,
Vislumbra as pinturas divinas,
Esquecidas e distantes,
Por milhares de anos-luz.

Reflete então sobre a luz e a sombra
Entorpece tua mente com a bebida e dorme sem nada aspirar
Quem sabe não encontra, nos teus sonhos

A tua estrela perdida. 
Jogo da Vida

Rolem os dados do jogo da vida
Amorteça a ânsia das expectativas
A mão do destino pode ser traiçoeira
E também está sempre a jogar
Da ironia da perda sobrevém a paciência
E a inspiração para vislumbrar novas possibilidades
A roda da fortuna, incessante
Nunca para de girar.
Porém, eu, como jogador adicto
Não espero pela minha vez.
Faço do acaso a minha oportunidade
E quando ganho, faço pouco caso do ganhar.
Diga-me, seria mesmo a sorte

O contrário do azar?

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Ave de ìcarus

Nasci e cresci num ninho de cobras
Cerceado por um covil de lobos
Retirei-me em meu casulo...
Refletí. Meditei sobre as questões substanciais da vida.
Como uma borboleta atirei-me ao céu,
À sorrelfa libertei-me das prisões pungidas
Alcei vôo com a leveza própria da bravura desmedida
As setas que voam durante o dia então feriram-me as asas...

Na queda aprendí sobre o mistério do abismo
Foi então que regenerei-me e ressurgí como a Ave de ìcarus.
Desafiei o infinito do horizonte com a firmeza de um coração destemido
E cá estou eu, com meus olhos incandescentes, a mirar:
As alturas da tenacidade humana.

E então vejo:
As cobras que mordem as próprias caudas
Os lobos que mastigam suas biles salgadas
Pessoas merencórias que fitam suas próprias sombras.


*Em itálico: Alusão ao Salmo 91


Paulo Santucci

sábado, 14 de março de 2015

Mixórdia


Há quem diga haver uma gradação entre os valores opostos
Há quem diga já não existir muita diferença entre o bem e o mal
Dizem também que os opostos não mais se atraem.
Todavia,  para se auferir os valores da ética
A álgebra já não é mais a primeira opção.
Adota-se agora a geometria para diferenciar:
O bem do mal,
O certo do errado,
A loucura e a sanidade.
Pois estar certo, nos dias de hoje, é equilibrar-se

Na tênue linha curva da oscilação.