Inspiração
Outro dia, o Diabo me bateu à porta:
“Venderias sua alma por um pouco de inspiração”
Disse-lhe:
“Vade reto sem olhar para trás! Mesmo o que eu não tenho, já sei de antemão.”
“Venderias sua alma por um pouco de inspiração”
Disse-lhe:
“Vade reto sem olhar para trás! Mesmo o que eu não tenho, já sei de antemão.”
Insistentemente, ele perscrutou-me
“Julga por palavras tortas conhecer seu coração?”
Retruquei: Vê se não me incomoda! É acima do meu umbigo que mora a minha razão!”
“Julga por palavras tortas conhecer seu coração?”
Retruquei: Vê se não me incomoda! É acima do meu umbigo que mora a minha razão!”
Passaram três dias sem ninguém bater à minha porta...
Outro dia, apareceu um pastor à minha porta:
“Tem dez minutos para conhecer a palavra do Senhor”
À moda de Sócrates, respondi-lhe:
E esses dez minutos fariam aumentar o meu dissabor?
“Tem dez minutos para conhecer a palavra do Senhor”
À moda de Sócrates, respondi-lhe:
E esses dez minutos fariam aumentar o meu dissabor?
Este nunca mais me apareceu à porta.
Passou-se mais um dia e veio um vendedor:
“Já sabia que há falta de santos no paraiso. Não gostaria de comprar a sua entrada?”
Respondi-lhe: Vê se não me esgota a paciência: da luta contra os demônios eu ganhei e foi de virada.
“Já sabia que há falta de santos no paraiso. Não gostaria de comprar a sua entrada?”
Respondi-lhe: Vê se não me esgota a paciência: da luta contra os demônios eu ganhei e foi de virada.
Este nunca mais me apareceu à porta.
Passou-se uma semana e desta vez um deputado:
“Vamos mudar o país, se eu conseguir o seu voto.”
Vossa excelência, me perdoe. Da sua ciência não sou devoto.
“Vamos mudar o país, se eu conseguir o seu voto.”
Vossa excelência, me perdoe. Da sua ciência não sou devoto.
Passaram-se três dias e apareceu um bêbado à minha porta:
“Senhor, desculpe lhe incomodar, mas eu preciso é de cachaça”
Eu respondi-lhe:
“Meu senhor, você angariou meu coração. Diga-me quanto precisa para um mês inteiro?”
“Trinta reais, senhor.”
Tudo bem, lhe darei sessenta, volte daqui a trinta dias e diga-me o que aprendeu.
“Senhor, desculpe lhe incomodar, mas eu preciso é de cachaça”
Eu respondi-lhe:
“Meu senhor, você angariou meu coração. Diga-me quanto precisa para um mês inteiro?”
“Trinta reais, senhor.”
Tudo bem, lhe darei sessenta, volte daqui a trinta dias e diga-me o que aprendeu.
Trinta dias depois o bêbado na minha porta bateu.
Perguntei-lhe então, o que aprendeu?
“Bebo para suporta a amargura da vida,
Fico feliz quando vejo a amargura descida,
Cambaleio e caio para lembrar que há sempre uma subida
Canto e abraço o acaso de mãos estendias.”
Perguntei-lhe então, o que aprendeu?
“Bebo para suporta a amargura da vida,
Fico feliz quando vejo a amargura descida,
Cambaleio e caio para lembrar que há sempre uma subida
Canto e abraço o acaso de mãos estendias.”
Bravo, disse-lhe.
O bêbado então perguntou:
“Meu senhor, para que fez isso?”
O bêbado então perguntou:
“Meu senhor, para que fez isso?”
Analisei a sua lógica,
De todos que bateram a minha porta,
Só vi em você o sinal de nenhuma contradição.
Mais que isso, ofereceu-me algo maior que a razão.
Senão o estímulo para continuar a pensar, talvez a própria Inspiração.
De todos que bateram a minha porta,
Só vi em você o sinal de nenhuma contradição.
Mais que isso, ofereceu-me algo maior que a razão.
Senão o estímulo para continuar a pensar, talvez a própria Inspiração.