segunda-feira, 18 de junho de 2012


Memórias sentidas

Quando lembro, altero o passado, através do sentimento presente
Constituo então, nova memória, que conforme sentida, será lembrada
De tal forma que, com os sentimentos do dia a dia
Colherei determinadas memórias,
Que serão cuidadas e mantidas,
Transformadas e sentidas,
Semeadas e colhidas,
Num jardim que se manifesta enquanto sinto o que penso

Assim, estendendo-me no tempo infinito
Disponho unicamente da lembrança do que sentí
E da vontade em sentir o que ainda não conheci,
Pois na falta de critério para definir o que não conheço
As memórias não passam de tautologia
Quando o passado não encontra no presente,
Equivalência em grandeza, que possa ser sentida.

E não podendo encontrar o que sinto, aspiro
Encontrar no futuro o que não tenho no presente
Para que possa então transpor, momentaneamente
As barreiras que me vedam o coração.



Paulo Santucci.


Pedras sobre o túmulo

Hoje botei pedras em seu túmulo,
Não, você não estava presente
Uma vez que a morte não lhe agraciou
Com a sua chegada, evidente

Mas há vezes que podemos nos antecipar
Ao fato iminente
Que ainda não aconteceu no presente,
Ao menos não de forma peremptória e definitiva
Embora aconteça sucessivamente, no curso do inevitável e certo
Como a transmutação do vivo ao pútrido,
Do belo ao disforme,
Da carne que come a si mesma,
Debaixo da terra em que os pés uma vez já pisaram

Há vezes que a morte chega em vida,
Não se faz anunciar por uma questão de sorte,
Pois se a morte é o retrocesso da vida
Não pode ser a vida um processo de morte?

Paulo Santucci



Relacionamento

A proximidade confunde. Mistura coisas indissolúveis, não o suficiente ao ponto de formar um composto harmonioso, mas ao ponto de confundir compostos que são pouco harmoniosos enquanto sós, mas extremamente caóticos enquanto um.

Um relacionamento são dois espelhos, um em frente ao outro, que servem para tudo, menos para aproximar a realidade do objeto visto. São espelhos que refletem o imaginário, o plano da ideação, em que pode ser vista somente uma imagem, formada por duas telas sobrepostas, aonde  integram-se o outro, como verdadeiramente é, e como é visto pela deformidade de quem o vê.

No relacionamento um termina aonde o outro acaba. Na perspectiva dos cônjugues, não se sabe o que é o fim ou o começo, pois viveu-se tanto tempo na interseção, que perdeu-se a totalidade do conjunto.
A interseção é a limitação consentida inconscientemente. É o espaço que permite o trâmite de um ou do outro, ação e reação, dínamo constante da paixão, ou das mais diversas emoções.

É um tratado amistoso, aonde forças antagônicas abaixam as armas para desfrutar do território em comum, dito ‘neutro’. Mas dure o tempo que for, das fardas nunca se perdem os emblemas, tampouco a hierarquia e posição em relação aos generais.

Relacionamento também pode ser prolongamento da solidão. Duas metades que se dividem e formam quatro. Apenas uma forma de se distrair, alguma nova forma de estar só, em comunhão.

Paulo Santucci