Ode à beleza
Era uma mulher bela,
Mas não de uma beleza exagerada,
Uma beleza que se porta educadamente, como uma dama ao entrar num salão
Que destaca-se justamente pela paciência em ser vista,
Não esperando ser pelos homens auscultada,
Pois sabe que o que sente, determina o modo como é vista
Sabe que a espera é por eles sempre apreciada
Como se pudesse dizer:
- É preciso mais de um olhar para me ver!
Uma beleza que agrada aos olhos, sem intimidá-los
Que não termina bruscamente, não dura o tempo de um olhar de soslaio
Uma beleza que se releva ao admirador, aquele espera pacientemente,
Mas sempre a dizer:
-Surjo aos teus olhos, mas sou evidente somente para a tua imaginação.
Era uma mulher bela,
Seu rosto iluminado como que por um lampião a gás,
Beleza que reluz sob a luz da penumbra,
Cabelos feitos de sombras,
Sua pele cor de madeira rubra,
Seus olhos grandes de cerâmica, perfeitamente delineados,
Seu corpo magro, feito para servir ao rosto
Mesmo seu corpo possuía traços,
Assim como o busto e as pernas, e suas curvas esbeltas
Que dão as vestes o mesmo que sua tez,
Sensualidade comportada,
Mas com um quê de insensatez.
Mistérios desenhados em traços, incitam a curiosidade
Uma parte de sua feição, tácita, furtiva
Um rosto sorri através do rosto que examina,
Um rosto sorri através do rosto que examina,
Beleza escondida, beleza apreendida
Por um olhar que se reflete, mas se limita ao olhar da dama, vista
Que sabe que é apreciada, mas também subentendida
E com suas sobrancelhas sempre a dizerem:
- Sei o que aprecias pois te olho em mim.
Era uma mulher bela,
De uma beleza possível, pois em nada se excedia
Tampouco se media
Mal se comparava, pois fora feita em um molde
Que somente lhe servia,
Era uma beleza rara e comedida,
Por demais interessante
Por demais interessante
Se fosse mais bela já não seria o bastante.
Paulo Santucci