terça-feira, 22 de agosto de 2017

Acaso
Vamos marcar às seis horas
Mas vamos decidir nos encontrarmos por acaso
O Senhor é o dono do destino
Mas o Amor não joga dados.
Irei ao nosso encontro com galeio e com tino,
Trabalharei as palavras com suor e afinco,
Com o coração batendo aflito,
Mas sem descompasso.
Nossos beijos serão parte do figurino,
O sol nos esperará como um fugitivo,
Saído das órbitas atrasado e furtivo,
Só para iluminar nossos cambaleantes passos.
A noite chegará para iluminar nossos beijos
E as carícias e os desejos.
Mas estes já estão velados,
Pois o Senhor do destino abençoa nossos atos.
Luar de Diamante
Olhos que sussurram
Ventos que sibilam
O amargo néctar da chuva 
Cai sobre sua fronte
O fúnebre luar paira como uma nuvem
Enquanto almejas tocar o horizonte
És bela como uma flor pura
Mais bela quando dança pela rua
Nua enquanto vestida
Dá os ares de carnaval à avenida
Sem temer os transeuntes
Os lábios quando fechados
Encerram os mistérios, vedados
Aos loucos apaixonantes
Seus mistérios, encerrados
Acabam quando se desfazem os beijos
Sob o luar de diamante
Versar
Procuro aqui exprimir em palavras
algo que seja inexprimível.
E traduzir nesta folha em branco
um sentimento indiscutível.
Tornar verdade o que antes era:
meramente inverossímel.
E linha a linha galgo uma montanha
que dantes era intangível.
Versar é auscultar o belo
e contentar-se com o singelo.
É retratar com uma paisagem de palavras,
o aroma de uma flor.
É encontrar júbilo,
Tanto no amor como na dor.
É falar sobre coisas
das quais não se pode ter certeza
É atirar-se ao mar,
e agarrar--se na correnteza.
É falar sobre o inextrincável,
Destrinchá-lo em palavras,
E torná-lo palpável.
Horas Vagas
Horas vagas
Palavras caladas
O silêncio irrompe no som
E o tédio fleumático toma conta do coração
Tempo que não passa é tempo que se esgota
Perde-se o tempo num novo tempo que surge
Demarcado por instantes.
E os pensamentos sibilantes
Ecoam numa mente aturdida
Há de vir o tempo que cura as feridas
De um modo de vida desgastante.
Poema romântico
Boca que margeia um oceano
D’uma água que afoga os românticos
Boca com gosto de mil amores
Remédio pra quaisquer dissabores
Discorrer sobre ela é lançar um verso ao universo
Apaixonar-se a ela é viver de modo inverso
Razões desmedidas da loucura que atam o coração
Deixar de amá-la é padecer na solidão
Tamanha beleza, quem não reconhece é o maior dos profanos
Contemplação austera, tão longe e distante tal qual o horizonte
Mas com mil pensamentos embaraçados continuo sonhando
Sabe-se lá que um dia poderei tê-la ao meu alcance
Intrépido e Esmorecido
Sinto o cansaço pesar nos meus ossos
Por conta de mais um dia corrido
Por teimosia, cá estou eu a persistir
Intrépido e esmorecido.
Páro para ver a onda do mar que ainda não bateu,
Espero ver morrer o sol, aflito.
A paciência é um bem que sempre trago comigo,
E cá estou eu,
Intrépido e esmorecido.
Findo as pessoas que passam, bem de perto
Ausculto suas vestes e o modo de andar
A reflexão nunca é desacerto,
E é nela que busco abrigo.
E cá estou eu,
Intrépido e esmorecido.