sexta-feira, 27 de março de 2020

Persistência
Persistência,
Talvez seja abstinência dos ideias do meu ser.
Ver uma velha fotografia,
E colorir um filme em preto e branco para poder me entreter.
Persistência,
Agir com renitência,
Travar uma conversa com os mudos,
E esconder meu saber.
Escutar os murmúrios dos surdos,
E falar em alto e bom som,
Sobre o que os cegos não conseguem ver.
Persistência,
Fazer todos os dias as mesmas coisas,
E no marasmo dos meus ossos,
Consentir com algum prazer.
Almoço, café, janta
Cotidiano é uma ciência da qual sou devoto
E mesmo assim não o consigo entender.
Dormir, acordar, levantar
Pelos becos da rua se esgueirar
Pela multidão de pessoas transpassar,
Tudo na vã tentativa de tentar me esconder.
Crente na causa final de todas as coisas,
E mesmo assim buscar nas brechas do acaso,
Um augúrio do que poderá vir a acontecer.
Persistência,
Lânguida alma e sua luminescência
Que faz do trabalho e do descanso,
Momentos para tudo transparecer.
Persistência,
Ato nobre da resistência,
Contra todo o aspecto vil do mundo,
Ao qual não é possível aquiescer.
Paulo Santucci

sexta-feira, 20 de março de 2020

Rindo com os loucos
Toda dia a luta se entrava,
No raiar das trevas meu ego se engaja,
Nas adstritas glebas do conhecimento, eu espero
Vislumbrar o ócio do tempo em seu pretérito.
Sabedoria talvez seja repetir a si mesmo,
Tudo aquilo tragado pelo vil esquecimento,
Que faz das memórias, águas passadas jorradas a esmo
Endurecidas como lágrimas, tão duras como cimento.
Repaginados os atos, de bravura e loucura,
Na parábola do semeador, colho a semeadura.
Nunca disseram-me que a vida é mole, tão pouco tão dura
Dar-me-ão a posse de mim mesmo, assim que me abster da investidura.
As paredes do hospício enclausuram os doentes,
As paredes do confessionário confessam as palavras dos penitentes,
O orador e o curador, em modos opostos se assemelham
Ao deixar seus espectadores mais ou menos contentes.
Nos labirintos de asfalto
Mundos opostos se atraem,
Transeuntes, andando em círculos, cruzam os seu percalços,
Levitando não na água, mas na margem.
E fico eu na janela,
Vendo a vida passar tal qual uma novela,
E para saborear o gosto acre do meu tempo,
Dedico-me á:
Entender os pormenores do pensamento
Amiudar as intempéries do sentimento
Engajar-me no obscuro discernimento
Para da sã loucura regozijar-me com meu entretenimento.

Paulo Santucci

sexta-feira, 6 de março de 2020

Fogo Fátuo
Luzes divinas irrompem no cemitério,
Transformam o mórbido em belo
Ato natural e singelo,
Da transubstanciação do meio vivo para o deletério.
Outrora vivo, agora morto,
Os ratos roem das almas o corpo,
Não sendo algo vívido, senão outro,
Vermes da carne sem vida, tampouco.
Estágio de morte,
Ato final da vida,
Mistérios esplêndidos calados
No transcorrer da ida.
Para noutro mundo viver,
Os da carne livrados,
Que caem num abismo,
Tão livres quanto despreparados.
Covas enchidas das lágrimas do pranto,
Vozes suprimidas nas paredes do caixão
Espíritos que se entregaram ao deus Tânatos,
Cumprem o destino escrito nas linhas de suas mãos.
Almas pairam sobre as almas
Gravitando na órbita lunar
Dançam como vis dançarinas
Sob a égide do funesto luar
O fenômeno é claro, reluzente
Claro demais até para os clarividentes
Pois homens sãos ou doentes
Na metáfora da morte,
São todos renitentes.
Para alguns magia,
Para outros assombração
A luz áurea sobre as covas,
Clarão da morte nada peremptório
Ilumina as lápides e os óbitos
Como a arte final da morte em sua ação
Na simplicidade da carne em sua putrefação.
Paulo Santucci