Água
Da arca que navegava no fim do mundo,
Era eu passageiro, tripulante e observador do dilúvio.
Água que surge, não se sabe de onde provém o manancial,
Água presente na certeza e na dúvida, e de toda questão primordial.
Água,
Corre pelas veias e artérias,
Deixando a cabeça aérea.
Água que bombeia o peito,
Para depois o encher de idéias.
Água que orienta a navegação sem prumo,
Atordoada mente que perscruta a si, sem rumo
Água que afoga e socorre o nadador moribundo,
Água que derruba muralhas, prédio e muros.
Ébrio das palavras que sinto no meu corpo d’água,
Sinto a secura da semântica salgada.
Concatenando verbos, expressões árduas,
Escrutino meu ser como um perfeito iconoclasta.
Movimentando as engrenagens do meu ser,
A água está lá, debaixo da pele e da onde não se vê.
Enquanto formulo minhas sóbrias aspirações,
A água transforma os sentimentos em soluções.
Água,
Varre tudo para dentro,
O que é mole vira cimento.
Água presente no júbilo e no enrubescimento,
Milhões de neurônios disparam num simples intento.
Tal qual uma garrafa atirada ao mar,
É meu copo no ato de pensar,
Entretendo-me com o ato de estar,
Sou o timão de mim mesmo, vendo a onda passar.
Água,
Nunca o suficiente para saciar,
De tanto pensar sinto até mais sede,
Meu eu retorna de onde nunca esteve,
Ébrio de um copo repleto do falar.
Enchendo os rios e os oceanos,
O plasma sanguíneo e o líquido cefalorraquidiano,
Água que sai pelas lágrimas e que sorve o pranto,
Movimenta os músculos, no riso e no espanto.
Tal como se move uma idéia certeira,
Sofro de “hidrofobia” (não daquela que matou a cachorra Baleia*)
Afogado nos mares que transito,
Ressurjo na margem, num dia bonito.
Não tão corajoso tão pouco espavorido,
Todo dia bebo um pouco de mim,
Uma garrafa inteira de sentimento líquido.
*alusão a personagem de Vidas Secas, de Graciliano Ramos.
Paulo Santucci