quarta-feira, 7 de outubro de 2020

 Água

Da arca que navegava no fim do mundo,
Era eu passageiro, tripulante e observador do dilúvio.
Água que surge, não se sabe de onde provém o manancial,
Água presente na certeza e na dúvida, e de toda questão primordial.
Água,
Corre pelas veias e artérias,
Deixando a cabeça aérea.
Água que bombeia o peito,
Para depois o encher de idéias.
Água que orienta a navegação sem prumo,
Atordoada mente que perscruta a si, sem rumo
Água que afoga e socorre o nadador moribundo,
Água que derruba muralhas, prédio e muros.
Ébrio das palavras que sinto no meu corpo d’água,
Sinto a secura da semântica salgada.
Concatenando verbos, expressões árduas,
Escrutino meu ser como um perfeito iconoclasta.
Movimentando as engrenagens do meu ser,
A água está lá, debaixo da pele e da onde não se vê.
Enquanto formulo minhas sóbrias aspirações,
A água transforma os sentimentos em soluções.
Água,
Varre tudo para dentro,
O que é mole vira cimento.
Água presente no júbilo e no enrubescimento,
Milhões de neurônios disparam num simples intento.
Tal qual uma garrafa atirada ao mar,
É meu copo no ato de pensar,
Entretendo-me com o ato de estar,
Sou o timão de mim mesmo, vendo a onda passar.
Água,
Nunca o suficiente para saciar,
De tanto pensar sinto até mais sede,
Meu eu retorna de onde nunca esteve,
Ébrio de um copo repleto do falar.
Enchendo os rios e os oceanos,
O plasma sanguíneo e o líquido cefalorraquidiano,
Água que sai pelas lágrimas e que sorve o pranto,
Movimenta os músculos, no riso e no espanto.
Tal como se move uma idéia certeira,
Sofro de “hidrofobia” (não daquela que matou a cachorra Baleia*)
Afogado nos mares que transito,
Ressurjo na margem, num dia bonito.
Não tão corajoso tão pouco espavorido,
Todo dia bebo um pouco de mim,
Uma garrafa inteira de sentimento líquido.
*alusão a personagem de Vidas Secas, de Graciliano Ramos.
Paulo Santucci

 Quididade

Na incessável busca pela minha quididade,
Navego nos mares de lástimas da humanidade.
Como um pintor que nas sombras pinta o reflexo da Realidade,
Tal qual um estranho pondero sobre mim com estranha cumplicidade.
Travando no peito uma infiel comoção,
Nas veias, um labirinto de emoções que jorram no coração.
Filosofia perene, ao se desfazer deixa um vão,
Instransponível obstáculo entre a dúvida e a razão.
No cair da noite, uma promessa de ilusão,
De ver sob a luz do dia do problema a solução.
Estranho pacto, sereno e íntimo,
Nas palavras que jogo ao ar, dizendo, comigo:
“O pão de cada dia engulo seco e azedo,
Não sei se é o sal ou o se é o fermento,
Alimento que nutre os ossos, como a luz nutre a escuridão
Na língua o gosto do ócio, no estômago a indigestão”.
Enquanto o sol está de pé calço a mim e aos sapatos,
E por onde perambulo, deixo discretos rastros.
Se quem está a me guiar sou eu próprio, ou as covas de meus passos,
Reluzo na fronte minha ambição e ao caminhar, a mim mesmo, perpasso.
O sol se deita e já é tarde para se pensar,
Todavia quando a boca se cala a mente põe-se a murmurar.
Estranha via de duas mãos, é o horizonte infinito a se espraiar
Para muitos caminhos leva, mas não para algum lugar.
Assim, na minha jornada muitas linhas teço,
Tal qual a aranha que para a presa constrói o seu enredo.
Das palavras tortas ao prosseguimento,
Minhas concatenações ilógicas, ao menos, eu amorteço.
Se estou certo ou errado, pouco me comprazo.
Faço da busca meus afazeres, minha rotina e meu compasso.
E assim, rígido em minha mortalidade que se liquefaz,
Busco pela minha quididade, na forma que me apraz.
Paulo Santucci,