quarta-feira, 7 de outubro de 2020

 Quididade

Na incessável busca pela minha quididade,
Navego nos mares de lástimas da humanidade.
Como um pintor que nas sombras pinta o reflexo da Realidade,
Tal qual um estranho pondero sobre mim com estranha cumplicidade.
Travando no peito uma infiel comoção,
Nas veias, um labirinto de emoções que jorram no coração.
Filosofia perene, ao se desfazer deixa um vão,
Instransponível obstáculo entre a dúvida e a razão.
No cair da noite, uma promessa de ilusão,
De ver sob a luz do dia do problema a solução.
Estranho pacto, sereno e íntimo,
Nas palavras que jogo ao ar, dizendo, comigo:
“O pão de cada dia engulo seco e azedo,
Não sei se é o sal ou o se é o fermento,
Alimento que nutre os ossos, como a luz nutre a escuridão
Na língua o gosto do ócio, no estômago a indigestão”.
Enquanto o sol está de pé calço a mim e aos sapatos,
E por onde perambulo, deixo discretos rastros.
Se quem está a me guiar sou eu próprio, ou as covas de meus passos,
Reluzo na fronte minha ambição e ao caminhar, a mim mesmo, perpasso.
O sol se deita e já é tarde para se pensar,
Todavia quando a boca se cala a mente põe-se a murmurar.
Estranha via de duas mãos, é o horizonte infinito a se espraiar
Para muitos caminhos leva, mas não para algum lugar.
Assim, na minha jornada muitas linhas teço,
Tal qual a aranha que para a presa constrói o seu enredo.
Das palavras tortas ao prosseguimento,
Minhas concatenações ilógicas, ao menos, eu amorteço.
Se estou certo ou errado, pouco me comprazo.
Faço da busca meus afazeres, minha rotina e meu compasso.
E assim, rígido em minha mortalidade que se liquefaz,
Busco pela minha quididade, na forma que me apraz.
Paulo Santucci,

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