quinta-feira, 17 de maio de 2012


Pérfida e espúria,

A mentira lhe cerra os lábios,
A dissimulação lhe forma o rosto,
Suas palavras são adocicadas,
e sua doce lábia destila o veneno do verbo, da mesma maneira que as abelhas
fazem com o mel.

É a mentira contada antes da verdade,
É o abraço, precedido do punhal.
Seu perfume, feito com pétalas de rosas que crescem sobre o túmulo
Retira o oxigênio de quem o inala, dando ao ofegante somente o suspiro

Sua voluptuosidade é etérea, paira no ar, mas se desmancha como a fantasia

Mesmo a sinuosidade do seu corpo tem firmeza,
Sua beleza em curvas convida o olhar para uma incursão que se perde em voltas
Suas ideias, fúteis, fazem com que o raciocínio do maior dos sábios,
perca-se em dúvidas, sinuosas

É capaz de ludibriar a alma de um homem,
É capaz de provocar o adultério
Do homem com a sua alma

Sua lábia é o convite para a mentira
Sua boca não só engana, mas range o equívoco

Seu reflexo sim, é real.

É a parte mais concreta de seu ser
É a imagem grudada nas retinas do seduzido
É reminiscência no sonho do enganado, adormecido.

                                                                                                             Paulo Santucci

O tempo e o tédio

Deus pune os idiossincráticos com o tédio. Já é tarde de noite, e espero pelo amanhecer. Os  ponteiros estão aquém para onde gostaria que apontassem.

Parece-me que o tempo durante a noite transcorre de forma diferente e todos os relógios são confusos e inexatos para marcá-lo, mais valendo como uma imagem da debilidade da mente racional e consciente em tentar entender o ininteligível, medir o imensurável e definir com precisão o que é impreciso, por natureza.

Acontece que o tempo não é o uniforme para todos, sobretudo para os que cometem o sacrilégio de esperar o tempo passar. Estes, Deus pune com o tédio.

O que fazer? O que pensar?

Já correspondi-me no nível de minhas certezas  o suficiente, para aceitar, aquiescendo-me  com a fadiga, que meu esforço é inútil, e que tudo aquilo que sinto, quando penso, é semelhante à  fruta mastigada, que do frescor original só possui a lembrança, mas não o sabor.

Paulo Santucci

quarta-feira, 16 de maio de 2012


Parâmetros do Sonho

Parâmetros, como gostaria de tê-los? Se meus excessos não me levassem alhures, mais fácil seria negar a realidade de meus devaneios. Uma vez que meus excessos fazem com que eu alcance aspectos tão sublimes da vida, e que minha languidez traduza-se na minha mais profunda tristeza, mais fácil é viver a vida com apetite desmedido por uma saciedade que nunca será alcançada.

Para alguns o horizonte é limite. Mas só o é quando a idéia de horizonte acalma os ânimos, e o ímpeto de ver além. Assim, nos recônditos do sonho real, do sonho forjado com os limites de inteligibilidade, exasperado pela covardia da falta de imaginação, sonha-se um sonho limitado, fruto de um sono aquiescido com o excesso, de sono.

O sonho é uma maneira ardil de escapismo. Sonhar é sobreviver à realidade. É criar, na mente, um mundo feérico, que manifesta-se quando o Ser despoja-se, de tudo aquilo que não tem, para mergulhar no vazio, que misteriosamente, preenche-se com o milagre chamado de imaginação.

Paulo Santucci