quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Tolo sem ouro
Perscrutando horizontes longínquos,
Buscando brumas bem de perto do fim do abismo.
Ele devaneia e não pensa consigo,
E busca na mão que o derruba um amparo amigo
Sozinho, gravita no universo de seu umbigo.
Suas questões paradoxais são falácias que imprimem a face de seu histo,

A cada esquina da rua, acende um cigarro e traga seu suspiro,
Busca em milhares de palavras uma desculpa para o seu ceticismo
E vai ao terapeuta para ouvir a si mesmo, com devido escrutínio,
Que sua anedonia está lhe afetando o raciocínio
Mas a palavra não cala, irrompe no córtex cerebral
Emerge em forma de atos falhos, cismas e comportamento animal

Com Cronos e Tânatos, ele corre contra o tempo
Disputando com um parceiro desleal,
Seu algoz ego ferido, àquele que atinou contra seu maior ideal:
Viver uma vida feliz, como todos os outros vivem
E como um tolo sem ouro ele resfolega e sobrevive.
Mais alguns dias...
Pois na vida só a morte é que persiste.
Paulo Santucci
A lógica do irracional
Deparei-me com uma questão colossal,
O que subjaz à alma humana neste mundo infernal?
Nos dias de hoje, anjos choram e demônios cantam,
E o homem fleumático procura conhecer a si mesmo, no entanto.
O gozo da vida é a busca final para muitos,
Que, cegos da mente, vâo ao encontro de seus próprios
augúrios.
Perfilam-se em linhas horizontais na fila dos bancos,
Para assinar o contra-cheque de seus próprios desencantos.
O homem racional esmorece com seus próprios anseios,
E ao dormir à noite, sonha com seus próprios devaneios.
A luta é contínua, a marcha é rítmica,
E o homem continua em frente com sua bronquite, asma e arritmia cardíaca.
Não há tempo para o Belo, nem para o Sublime,
E o espelho da contradição é a televisão, que a noite, ele assiste.
Trocaram os valores, não há mais xis sobre ípsilon,
A álgebra da vida mundana é feita para formular em sentenças, a penúria do impossível.
O sonho mudou: ganhou novos limites,
Agora serve para aceitar tudo aquilo que a razão não admite.
Pela manhã, um hiato para pensar entre a xícara de café e o cotidiano papel de jornal
A bebida desce com gosto de pressa, e também de confusão
E durante o dia, o homem inconscientemente responde a si mesmo, com tímida satisfação,
Mil perguntas que não calam (e que não ouve); certamente um dia, à certa idade, virão.
E saciando a si mesmo, o homem segue sem perceber a óbvia contradição,
E a pergunta que não cala, deveras abissal:
Para viver neste mundo, seria então necessário
Abrir a mão e deixar viver o pássaro
Ou então escrutinar (com afinco),
A lógica do irracional?

Paulo Santucci

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Homem da rua
Ali jaz um corpo vivo
Bem no meio da calçada. Entre os carros e os transeuntes
Suas raízes fincam o solo
O chão é o seu lugar, lugar qualquer e lugar nenhum
Ali está um homem aflito
Bem no meio da praça, ao figurar o seu lugar entre os que passam
Não pertence a ninguém. Suas raízes morais o prendem no subterrâneo
O chão é o seu dormitório, e tudo o mais na sua vida: transitório
O homem da rua envelhece sob o olhar de muitos
Alguns lhe dão atenção, outros, augúrios
“O que fez para estar nesta condição. Certamente, merece”
E é nesses momentos que a Cristandade padece.
O homem da rua é pior visto que os ratos.
(Mesmo esses ocupam espaço com o medo que causam)
O homem da rua é pior visto que as baratas
(Mesmo essas causam alvoroço nas moças que passam)
E ele continua ali. Implorando, mendigando, se arrastando
Sua barba cresce com o tempo: só faz aumentar a sua sombra
Sombra que o serve de alento e esconderijo,
Está sempre escondido, mesmo quando por muitos, visto.
Às vezes tem por companhia uma garrafa
Ás vezes tem por regozijo um prato de comida
É o maior espectador da vida social,
Contudo, o personagem mais subestimado da vida moral.
E vida que segue.
Quem liga para o que acontece,
Com um homem que certamente tem o que contar sobre a vida
E que reside no labirinto formado por ruas e avenidas.