segunda-feira, 22 de junho de 2020

Camaleão
Ao invés de falar sozinho,
Resolví falar comigo,
Adentrando uma fina penumbra,
Donde construí meu abrigo.
Paciente de muitas dores,
Amante de poucos amores,
Pela senda do insondável,
Vislumbrei sonhos aterradores.
Sempre em pauta com o senso ético,
Camuflando na existência como um réptil,
Liberando loucura, ao abrir da mente o alçapão,
Medonho destino, de viver como camaleão.
Cego das luzes evidentes,
Clarividente da luz oculta,
Não há mais o que discernir, entrementes
O vão que separa a sanidade de loucura.
Saudosa luz da penumbra,
Que nos tempos de adolescente,
Com a razão fazia permuta,
Com o coração a tudo, abrangente.
Mudo de cor, mudo de dor
Através da metamorfose metafísica,
Enceno a vida tal qual um ator,
Que esbraveja com asma, bronquite e tísica.
Tão logo me acham,
Tão cedo me camuflo.
Tão tarde me rasgam,
Torno-me um eloquente mudo.
Assim vão se passando as noites,
Assim vão se passando os dias,
Mesmo sendo animal não sou dado a açoites,
Mesmo sendo escuridão,
Não abandono a luz que me cria.
Tampouco cansado,
Tão pouco vivaz,
Melhor ser um camaleão camuflado,
Do que um inconveniente loquaz.
E assim, conto as estrelas que caem,
Pelo universo quântico,
Sou um camaleão que aos outros distrai,
Camuflado num poeta romântico.
Paulo Santucci,
Passageiro
Perscrutando minha existência,
Sob o alpendre da luminescência,
Fazendo uso de minha lânguida inteligência,
Retorquindo o Verbo com o meu pensar.
Com um pingo de decência,
Desnudo-me com displicência,
Só e comigo na minha ausência,
De mim procuro-me esgueirar.
Nos preâmbulos da consciência,
Quito a mental pendência,
Escrutinando com incongruência,
Meu ser enquanto estou a filosofar.
Discordando com anuência,
De toda rudimentar ciência,
Que paira como advertência,
Coibindo o modo de me expressar.
Exprimindo-me por conveniência,
Na semântica da não-correspondência,
Pelo ímpeto da providência,
Designo-me por linhas tortas afalar.
(Grito aturdido seco e rouco,
Se não for falado torna-nos loucos,
Na garganta há um morro,
Em que só se sobe ao versar)
Assim, há de se viver a experiência,
Existente na inconsciência,
Que por intermédio transferência,
Através de idéias vagas se põe a concatenar.
Rumo a transcendência,
Do conhecimento e de minha intransigência,
Que sobre todas as perenes aparências,
Que do saber, tento ocultar.
Mente parada é demência,
Verbo imperativo com reticência,
Há de se pedir clemência,
Pela preguiça de não declamar.
Assim, defiro com veemência,
Da passageira turbulência,
Que o ato solitário da renitência,
Que me coage a postular.
Paulo Santucci