sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

 Prólogo do coração


Algum talento em dizer por vias tortas,
Sobre os mistérios que passam pela aorta,
Sem prumo, vagueando alhures, sem rota,
Palpita-me no cérebro aquela emoção que denota:
(algum sentimento furtivo)

Há algo a dizer, que talvez já tenha sido dito
Um sussurro, um grito, ao pé do ouvido.
No plano mental uma algazarra de sonidos.

Ao pé da cama, o joelho toca o chão,
Tímido ao falar com os astros, esbravejante em comoção,
Há de se pedir:
Desvanecer-se o inferno e o apetite de glutão,
Que consumindo minhas internas palavras,
Faz-me perder o tino da razão.

Encontrarei sentido na mixórdia,
Que pulsa firme na carótida,
Dentro da garganta uma potencial rapsódia,
Para descrever um eu onírico, fora de órbita.

Para comigo, não tenho segredos,
A escuridão vejo com meus olhos crus, tanto que até desconheço:
A claridade que cega é a obscuridade do relampejo:
Do verbo cruel,
Feito da carne que em mim, amorteço.

Os dias são passados,
O presente é obscuro
Um momento inesperado,
É necessário,
Para ter o que vislumbro.

No jogo da sorte basta rolarem os dados,
Para se ter a quantia que procuro,
Para saber a quantos passos largos,
Estou distante do futuro.

(Até lá viverei meus dias,
Com a glória de um infante,
Mas com o pesar do luto.)

Paulo Santucci

 O Mar


Ò mar que me engole por dentro,
Quanto mais bebo mais fico sedento,
Ficando só e ao relento,
De um incognoscível sentimento.

Paixões furtivas
Sopram como brisas,
E a pele até arrepia,
Ao proteger o inviolável (feito de carne) monumento.

Transcendendo as sombras,
Para com a visão alcançar,
O que jaz além da meditação mundana,
E assim ver-me afogado em outro mar.

Som que reverbera do ego,
Para o silêncio é um tenebroso eco,
Da voz sufocada,
Pelas mãos que tentam o verbo, sinalizar.

Labirintos de palavras e frases,
Algazarra de som, semântica e sintaxe,
Pelo vão da alma,
Um novo código a se expressar.

E, contento, sou,
Porque sei de meu ser um pouco.
Cá e lá, e aonde estou
Se falo mais de mim já fico rouco.

E assim,
Iconoclasta dos filósofos antigos,
Sou aquele que se joga ao rio,
Para flutuar no mar.

Paulo Santucci