quarta-feira, 20 de julho de 2022

 A hóstia do Diabo

Pelo vale das sombras, um mercado
O mutirão de almas de um homem só, enfileirado
Pelas muitas sendas se vai, ao encontro do infortúnio inesperado
Na fila infinita, o homem esperar pagar a ninharia de sua vida, ao Diabo.
Prometeram-lhe muitas rendas,
Num casebre só, envelheceu, endividado.
Prometeram-lhe muitas terras,
Envelheceu só, subsidiário.
Noutrora fora jovem, muitos anos se passaram,
Noutrora fora belo, a carne a si mesma os ossos chupavam,
Noutrora fora rico, agora sua alma havia arrendado.
Houve um tempo em que muitas questões o tornaram perplexo,
Agora és um homem sem dúvidas e sem nexo,
Esperando pela vindoura recompensa do futuro retrocesso,
Com fuligem na garganta, abscesso nos pulmões e doença nos plexos.
Tateia na areia o tempo que esgota entre os dedos como numa ampulheta,
Olha o infinito sem enxergar nada finito que o entretenha,
O vale das sombras se põe na alcova cérebro fugitivo,
Que por endereçadas esperanças almeja o que o torna aflito.
Haverá recompensar por trabalho árduo e sem sentido?
Haverá punições por tempo desperdiçado e desmedido?
Aquele que escolheu como algoz, em sua mente,
Deverá ser temido ou simplesmente, esquecido?
Assim, passa dia após dia, nasce sol morre lua,
As crianças, agora adultas, dantes, perambulavam pela rua,
A fazenda, arrendada, donde cresce-se arvore, mas não fruta,
O homem que pela escassez de pensamento, não teve glória tampouco luta.
E assim permanece a fuga.
Vendera suas terras para um futuro entrevisto,
Campos Elíseos e panteão sob jugo de Dionísio,
A fêmea dá cria e o filhote nasce comprometido,
A ser ceifado pela morte que tudo espreita, penetra e abarca no seu rito.
Entrevendo outras maneiras, recorre sempre aos maneirismos,
Procurando outras formas de descrever, seu monótono solipsismo,
Alma espectadora do corpo, num infernal paralelismo,
Pouco caso faz de si, vivendo só como homem ínfimo.
E o homem morre sem saber,
Apenas é espectador do funcionamento dos seus órgãos, sem nada conhecer,
O olhar antes tenaz, agora se mostra lânguido e atarantado,
E o paladar padece o gosto da Hóstia do Diabo.
Paulo Santucci

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