quarta-feira, 25 de julho de 2012

Ode à beleza

Era uma mulher bela,
Mas não de uma beleza exagerada,
Uma beleza que se porta educadamente, como uma dama ao entrar num salão
Que destaca-se justamente pela paciência em ser vista,
Não esperando ser pelos homens auscultada,
Pois sabe que o que sente, determina o modo como é vista
Sabe que a espera é por eles sempre apreciada

Como se pudesse dizer:

- É preciso mais de um olhar para me ver!

Uma beleza que agrada aos olhos, sem intimidá-los
Que não termina bruscamente, não dura o tempo de um olhar de soslaio
Uma beleza que se releva ao admirador, aquele espera pacientemente,
Mas sempre a dizer:

-Surjo aos teus olhos, mas sou evidente somente para a tua imaginação.

Era uma mulher bela,
Seu rosto iluminado como que por um lampião a gás,
Beleza que reluz sob a luz da penumbra,
Cabelos feitos de sombras,
Sua pele cor de madeira rubra,
Seus olhos grandes de cerâmica, perfeitamente delineados,
Seu corpo magro, feito para servir ao rosto
Mesmo seu corpo possuía traços,
Assim como o busto e as pernas, e suas curvas esbeltas
Que dão as vestes o mesmo que sua tez,
Sensualidade comportada,
Mas com um quê de insensatez.

Mistérios desenhados em traços, incitam a curiosidade
Uma parte de sua feição, tácita, furtiva
Um rosto sorri através do rosto que examina,
Beleza escondida, beleza apreendida
Por um olhar que se reflete, mas se limita ao olhar da dama, vista
Que sabe que é apreciada, mas também subentendida
E com suas sobrancelhas sempre a dizerem:

- Sei o que aprecias pois te olho em mim.

Era uma mulher bela,
De uma beleza possível, pois em nada se excedia
Tampouco se media
Mal se comparava, pois fora feita em um molde
Que somente lhe servia,
Era uma beleza rara e comedida,
Por demais interessante

Se fosse mais bela já não seria o bastante.

Paulo Santucci

quinta-feira, 12 de julho de 2012

O Desconhecido

O desconhecido é o que pensamos sobre o desconhecido
Ou que não pensamos sobre o que julgamos conhecer
Consequência de quando a imaginação repousa por não ousar ir adiante

A certeza só elimina as dúvidas, temporiaramente
Elimina-as para calar a vontade de perguntar,
Fazendo com que se esqueçam as perguntas,
Arguindo assim novas formas, silenciosas, de se duvidar

O tempo todo, delimita-se o desconhecido e a reafirma-se  o que pouco se sabe
Como estratégia de enganar àquele que foge de seu declínio,
Mas sempre de forma que pareça sábia,
E que iluda o homem que pouco sabe, dando-lhe sonhos de grandeza
Ao que este  é acordado com pesadelos, debaixo de lençóis fustigados com o óleo do ócio

Entre os altos e baixos da luta do homem pela sobrevivência,
De si próprio.
O coração clama por Deus e o Diabo, enquanto o ego se queixa das intempéries da vida
A imaginação cessa e renuncia ao pacto com o Real,
E devolve ao homem o pouco que fora conquistado,
A sobriedade do ébrio,
A sabedoria do tolo,
Um pouco de dignidade, ao menos. 
E força,
Que o permita continuar sonhando acordado,

Delirando certezas.

Mas chega à noite, e o homem se prostra de joelhos
Junta as mãos ao peito, como se pudesse tocar o coração
E pede a Deus o que já teria sido encontrado
Se dele não tivesse se esquecido

Pois para salvar o homem dos delírios da certeza
Ou do assombro do desconhecido,
Não há Deus ou Diabo
Quando o próprio diabo é apenas o lado perverso,
 Da imaginação Divina.

Paulo Santucci

segunda-feira, 18 de junho de 2012


Memórias sentidas

Quando lembro, altero o passado, através do sentimento presente
Constituo então, nova memória, que conforme sentida, será lembrada
De tal forma que, com os sentimentos do dia a dia
Colherei determinadas memórias,
Que serão cuidadas e mantidas,
Transformadas e sentidas,
Semeadas e colhidas,
Num jardim que se manifesta enquanto sinto o que penso

Assim, estendendo-me no tempo infinito
Disponho unicamente da lembrança do que sentí
E da vontade em sentir o que ainda não conheci,
Pois na falta de critério para definir o que não conheço
As memórias não passam de tautologia
Quando o passado não encontra no presente,
Equivalência em grandeza, que possa ser sentida.

E não podendo encontrar o que sinto, aspiro
Encontrar no futuro o que não tenho no presente
Para que possa então transpor, momentaneamente
As barreiras que me vedam o coração.



Paulo Santucci.


Pedras sobre o túmulo

Hoje botei pedras em seu túmulo,
Não, você não estava presente
Uma vez que a morte não lhe agraciou
Com a sua chegada, evidente

Mas há vezes que podemos nos antecipar
Ao fato iminente
Que ainda não aconteceu no presente,
Ao menos não de forma peremptória e definitiva
Embora aconteça sucessivamente, no curso do inevitável e certo
Como a transmutação do vivo ao pútrido,
Do belo ao disforme,
Da carne que come a si mesma,
Debaixo da terra em que os pés uma vez já pisaram

Há vezes que a morte chega em vida,
Não se faz anunciar por uma questão de sorte,
Pois se a morte é o retrocesso da vida
Não pode ser a vida um processo de morte?

Paulo Santucci



Relacionamento

A proximidade confunde. Mistura coisas indissolúveis, não o suficiente ao ponto de formar um composto harmonioso, mas ao ponto de confundir compostos que são pouco harmoniosos enquanto sós, mas extremamente caóticos enquanto um.

Um relacionamento são dois espelhos, um em frente ao outro, que servem para tudo, menos para aproximar a realidade do objeto visto. São espelhos que refletem o imaginário, o plano da ideação, em que pode ser vista somente uma imagem, formada por duas telas sobrepostas, aonde  integram-se o outro, como verdadeiramente é, e como é visto pela deformidade de quem o vê.

No relacionamento um termina aonde o outro acaba. Na perspectiva dos cônjugues, não se sabe o que é o fim ou o começo, pois viveu-se tanto tempo na interseção, que perdeu-se a totalidade do conjunto.
A interseção é a limitação consentida inconscientemente. É o espaço que permite o trâmite de um ou do outro, ação e reação, dínamo constante da paixão, ou das mais diversas emoções.

É um tratado amistoso, aonde forças antagônicas abaixam as armas para desfrutar do território em comum, dito ‘neutro’. Mas dure o tempo que for, das fardas nunca se perdem os emblemas, tampouco a hierarquia e posição em relação aos generais.

Relacionamento também pode ser prolongamento da solidão. Duas metades que se dividem e formam quatro. Apenas uma forma de se distrair, alguma nova forma de estar só, em comunhão.

Paulo Santucci

quinta-feira, 17 de maio de 2012


Pérfida e espúria,

A mentira lhe cerra os lábios,
A dissimulação lhe forma o rosto,
Suas palavras são adocicadas,
e sua doce lábia destila o veneno do verbo, da mesma maneira que as abelhas
fazem com o mel.

É a mentira contada antes da verdade,
É o abraço, precedido do punhal.
Seu perfume, feito com pétalas de rosas que crescem sobre o túmulo
Retira o oxigênio de quem o inala, dando ao ofegante somente o suspiro

Sua voluptuosidade é etérea, paira no ar, mas se desmancha como a fantasia

Mesmo a sinuosidade do seu corpo tem firmeza,
Sua beleza em curvas convida o olhar para uma incursão que se perde em voltas
Suas ideias, fúteis, fazem com que o raciocínio do maior dos sábios,
perca-se em dúvidas, sinuosas

É capaz de ludibriar a alma de um homem,
É capaz de provocar o adultério
Do homem com a sua alma

Sua lábia é o convite para a mentira
Sua boca não só engana, mas range o equívoco

Seu reflexo sim, é real.

É a parte mais concreta de seu ser
É a imagem grudada nas retinas do seduzido
É reminiscência no sonho do enganado, adormecido.

                                                                                                             Paulo Santucci

O tempo e o tédio

Deus pune os idiossincráticos com o tédio. Já é tarde de noite, e espero pelo amanhecer. Os  ponteiros estão aquém para onde gostaria que apontassem.

Parece-me que o tempo durante a noite transcorre de forma diferente e todos os relógios são confusos e inexatos para marcá-lo, mais valendo como uma imagem da debilidade da mente racional e consciente em tentar entender o ininteligível, medir o imensurável e definir com precisão o que é impreciso, por natureza.

Acontece que o tempo não é o uniforme para todos, sobretudo para os que cometem o sacrilégio de esperar o tempo passar. Estes, Deus pune com o tédio.

O que fazer? O que pensar?

Já correspondi-me no nível de minhas certezas  o suficiente, para aceitar, aquiescendo-me  com a fadiga, que meu esforço é inútil, e que tudo aquilo que sinto, quando penso, é semelhante à  fruta mastigada, que do frescor original só possui a lembrança, mas não o sabor.

Paulo Santucci

quarta-feira, 16 de maio de 2012


Parâmetros do Sonho

Parâmetros, como gostaria de tê-los? Se meus excessos não me levassem alhures, mais fácil seria negar a realidade de meus devaneios. Uma vez que meus excessos fazem com que eu alcance aspectos tão sublimes da vida, e que minha languidez traduza-se na minha mais profunda tristeza, mais fácil é viver a vida com apetite desmedido por uma saciedade que nunca será alcançada.

Para alguns o horizonte é limite. Mas só o é quando a idéia de horizonte acalma os ânimos, e o ímpeto de ver além. Assim, nos recônditos do sonho real, do sonho forjado com os limites de inteligibilidade, exasperado pela covardia da falta de imaginação, sonha-se um sonho limitado, fruto de um sono aquiescido com o excesso, de sono.

O sonho é uma maneira ardil de escapismo. Sonhar é sobreviver à realidade. É criar, na mente, um mundo feérico, que manifesta-se quando o Ser despoja-se, de tudo aquilo que não tem, para mergulhar no vazio, que misteriosamente, preenche-se com o milagre chamado de imaginação.

Paulo Santucci