terça-feira, 26 de maio de 2020


Solidão
Solidão é o lado oculto da lua,
Tentar conhecê-la,
É discernir o eu sob a luz da penumbra.

Mil palavras vêm à mente,
Nenhuma é exata para defini-la
Destemido e desbravado,
Aquiesço que é melhor sentí-la.

Vazio preenchido,
A metade incompleta de meu ser,
Solitário e obscurecido,
Busco formas de me entreter.

Solidão que escapa aos sentidos objetivos,
Na adstrita gleba se faz conhecer,
Porque estar só mesmo na companhia de muitos,
É um aspecto intrínseco da parcialidade do Ser

Procuro num livro um refúgio,
Uma distração para a sofreguidão,
Pois estando comigo, só e no mundo
Não posso escapar da solidão.

Ah pungente vastidão
Dessa companhia inaudita,
Dama secreta dos mistérios do coração.

Ah, mas quantos estratagemas eu me lancei,
Para buscar fugir da sua singela dor,
Repleto de si mesmo muitas vezes me tornei,
Mas nunca imune ao seu dissabor.

Viver é sinônimo de vulnerabilidade,
Não estamos isentos da padecer de nós mesmos,
Mas evitando a mentira e a maldade,
Um futuro melhor vislumbro e conheço.

Estados de momentâneos da alma,
Momentos em que quase se perde a calma,
Fugir é ir na estreita reta que leva a direção,
Do male para o qual não é remédio ou solução.

Então, sento-me e escrevo
Sabendo que o imprevisto não encontra óbice,
Também presumo que é melhor estar vivo e aflito,
Do que afortunado pela morte.



Paulo Santucci
Dias chuvosos

Dias chuvosos,
Não são nada tenebrosos,
A não ser quando relampeja ,
E ai da alma malfazeja
Que ao perder o espetáculo da natureza
Procura se afugentar!

Dias chuvosos,
São um pouco umbrosos,
Mas bendito seja,
Aquele que encontra aconchego,
No barulho das gotas do oceano do céu,
Um lugar para se acalmar.

Gotas infinitas,
Tilintam nos ouvidos,
Como doce ruídos,
Um tanto quanto frios,
Que faz a alma se pavonear.

A água bate no solo,
A alma encontra a solidão,
A névoa obscurece a visão ,
Trazendo para si o óbvio:
Que a chuva não traz o medo de se molhar.

Fulgente como o trovão
Que já sabe de antemão
Aonde aterrissar,
Somos nós quando chove.
Pois são nos dias chuvosos,
Que voltamos para dentro,
Nosso tímido olhar.

No cobertor um abraço,
No coração um leve descompasso,
Dos furiosos relâmpagos,
Que caem no âmago,
Para o espectador os vislumbrar.

Há de chover,
Para a alma se aquecer,
Dos problemas se esquecer
E ao cair do entardecer,
Dormir com uma intempestiva canção de ninar.

Paulo Santucci
Os setes pecados capitais e o lacônico terapeuta

Sofro da vida alheia,
Quando vejo nos outros, felicidade,
Logo perco minha quididade,
É um fardo, um vício, um peso que me pesa
Terapeuta: Tens Inveja.

Fui dotado de certa malícia,
Para o dinheiro tenho tino,
Para esse fim, trabalho com afinco.
Mas minha vida se resume a só isso.
E para tudo tal, exaspero da minha esperteza:
Terapeuta: Então, tens avareza.

Sofro da sensualidade,
Sou apaixonado por mim mesmo,
Tal qual Narciso, só há a mim no espelho
Dos pecados da carne faço usura,
Terapeuta: Então, sofres de Luxúria.

Sinto um amargor interno,
Bebida não alcóolica com gosto de inferno,
Sinto ódio de tudo que é terno,
E para provocar dor tenho desmesurada malícia.
Terapeuta: Então, sofres de Ira.

Sinto satisfação em ver meu umbigo cheio,
Como por um prazer que me causa até dor,
Mas para mim não há comida com gosto de dissabor,
Para as artimanhas de me saciar, tudo o mais confabula
Terapeuta: Tens, gula.

Gosto de me deitar,
E enquanto deitado, de me extasiar.
Só de ver o trabalho, sinto dor nos músculos
Mas ficando parado sinto prazer obscuro.
Não me movo, mas também sou um carro que não enguiça.
Terapeuta: Então, tens preguiça

No mundo nada além de mim importa,
E olhando o plantio de outrem, espero que não destruam minha horta.
Tenho medo de quem me ofusca,
Tenho medo de quem me assombra,
Porque sem a luz dos holofotes,
Perco-me em minhas sombras.
Para fazer mais sucesso que o próximo não maneiro na maldade...
Terapeuta: Então sofres de vaidade.

- E o que senhor recomenda?

Terapeuta:
As sete chagas pelas quais a humanidade se assola,
Os setes males que não vêm de fora,
A carne sente o que sente a alma,
O que alma sente, o ego, se afoga.
Viver intensamente e não demasiado,
Não padecer do que sente e nem dos setes pecados.

Paulo Santucci

domingo, 17 de maio de 2020


O gosto da loucura

Gosto amargo,
Quando penso, demasiado.
Nas palavras que escapam aos dentes,
Sinto o gosto com língua de serpente.
Nunca só, mas um pouco atordoado,
Quando tomo minha cerveja, relaxado.
Na busca de uma razão oculta e evidente,
Ouço a verdade quando ela mente.
O fogo de Prometheu no fígado alimenta,
A concatenação que sob a lógica se aparenta.
Na busca pela palavra exata,
Sibilo sons com gosto de bravata.
Impávido e renitente,
Penso o verbo que não se sente.
Pragmático e incansável,
Engulo o verbo insondável
Mastigando líquido insolúvel,
Bebo o néctar do augúrio.
O desejo é incessante e implacável,
Calça os meus pés, e urge de modo inexorável.
Trocando as retas pelas curvas,
Ando em frente sem sentir tontura.
Tramitando na vã razão obscura,
Aprecio o gosto da loucura.


Paulo Santucci