terça-feira, 26 de maio de 2020

Os setes pecados capitais e o lacônico terapeuta

Sofro da vida alheia,
Quando vejo nos outros, felicidade,
Logo perco minha quididade,
É um fardo, um vício, um peso que me pesa
Terapeuta: Tens Inveja.

Fui dotado de certa malícia,
Para o dinheiro tenho tino,
Para esse fim, trabalho com afinco.
Mas minha vida se resume a só isso.
E para tudo tal, exaspero da minha esperteza:
Terapeuta: Então, tens avareza.

Sofro da sensualidade,
Sou apaixonado por mim mesmo,
Tal qual Narciso, só há a mim no espelho
Dos pecados da carne faço usura,
Terapeuta: Então, sofres de Luxúria.

Sinto um amargor interno,
Bebida não alcóolica com gosto de inferno,
Sinto ódio de tudo que é terno,
E para provocar dor tenho desmesurada malícia.
Terapeuta: Então, sofres de Ira.

Sinto satisfação em ver meu umbigo cheio,
Como por um prazer que me causa até dor,
Mas para mim não há comida com gosto de dissabor,
Para as artimanhas de me saciar, tudo o mais confabula
Terapeuta: Tens, gula.

Gosto de me deitar,
E enquanto deitado, de me extasiar.
Só de ver o trabalho, sinto dor nos músculos
Mas ficando parado sinto prazer obscuro.
Não me movo, mas também sou um carro que não enguiça.
Terapeuta: Então, tens preguiça

No mundo nada além de mim importa,
E olhando o plantio de outrem, espero que não destruam minha horta.
Tenho medo de quem me ofusca,
Tenho medo de quem me assombra,
Porque sem a luz dos holofotes,
Perco-me em minhas sombras.
Para fazer mais sucesso que o próximo não maneiro na maldade...
Terapeuta: Então sofres de vaidade.

- E o que senhor recomenda?

Terapeuta:
As sete chagas pelas quais a humanidade se assola,
Os setes males que não vêm de fora,
A carne sente o que sente a alma,
O que alma sente, o ego, se afoga.
Viver intensamente e não demasiado,
Não padecer do que sente e nem dos setes pecados.

Paulo Santucci

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