quarta-feira, 20 de julho de 2022

 Alturas

É ruim,
Quando se olha para baixo ou para cima e vê-se um beco.
Outrossim,
Sentir no palpitar do coração o ritmo certo do aperto.
Há momentos que não reconheço,
Se há partes de mim que não mereço,
Ou se apenas a certeza da mente não logrou acerto.
Tão pouco, tão longe, não encontre apreço,
Nas pequenas verdades que tão logo lembro e já esqueço,
Para envaidecer-me do meu tão pouco apego.
De minha quintessência sutil,
Que reluz, enquanto esmoreço.
Tão curta é vida, quando se encurtam os horizontes,
No espelho o pesadelo, mirar-se-á onde?
Cavalgarei perdidamente nos montes,
Que me levem para outro lugar, seja perto ou longe.
Todavia, perto de mim ficar-me-ei ou não,
É questão da qual não me atenho no momento.
Se caminho na direção certo ou na contramão,
Tanto faz,
Desde que me abrigue-me em algum alento.
Seja o que for o que me apraz,
Na mente encontro a doutrina fugaz,
Que me contento com o pouco menos do demais,
E, assim, na doutrina do que abstrai,
Encontro forças para vencer o nunca mais.
Encontre-me aflito,
Encontre-me perdido,
Sei que da temperança não faço usura,
E também, que como, introvertido,
Também tenho direito às alturas.
Paulo Santucci

 A arte de educar a imaginação

Prenda-me, para que não saia de onde estou,
Caso saia de mim não sou para onde vou,
E se encontrar-me perdido, diga- que já me achou,
E se estiver ensandecido, diga que louco não estou.
Dizem que não há limites para a mente,
Talvez verdade bem seja.
Mas caso encontre-me doente,
Peço que junto de mim não padeça.
Tão longe busco, tão perto fico,
Tal é a opulência do pobre, tal a mesquinhez do rico.
Não é tão difícil encontrar em falácias algum sentido,
Mas é difícil aceitar contradições para viver só e comigo.
Febril devaneio, padecer romântico,
Dormir aquecido no devaneio, escutando a loucura como cântico.
Sonhar com demônios, ignorar os anjos,
E quando olho-me no espelho vejo a loucura do encanto.
Talvez peque pelo excesso,
Talvez precise de medidas do que ainda não meço,
Talvez apenas não admita retrocesso,
Num processo que sei que estou certo.
Mas em verso e prosa talvez não tenha me tornado convincente,
Em explanar um lugar nenhum que descobri no ócio da mente,
Mas se trago algo da região inexplorada do inconsciente,
É chorar pela vida como um penitente,
E sorrir para a Morte com todos os dentes.
Mas se no divagar da matemática inexata da prosa descobri uma equação,
É aprender com a arte de educar a imaginação.
Paulo Santucci

 A Rainha da Lua

Deitado, no meu quarto, a mente perambula,
Os olhos cansados, por terem olhado a incandescente lua,
Eclipse amaldiçoado, de luz e penumbra,
Mistérios transladados, pernoite da busca.
Reconheci ter afigurado, semelhante medusa,
Que busca os olhares apaixonados, que se perdem, pelos bicos das ruas,
Então, eu, admoestado, segui minha simples luta,
De ver, atarantado, o fim daquilo que me ofusca.
Houvera tivesse buscado na metafísica uma solução,
Houvera tivesse me remediado da religiosa obnubilação.
Houvera tivesse solucionado o que me tange à razão,
E assim tivesse amortecido o que me pulsa a pulsão.
Ela vai e retorna,
Por caminhos dos quais não se encontram volta,
Solitária, despida e não nua,
Brilha no córtice oeste, como a Rainha da Lua.
Respostas que se seguem, repetido o padrão,
Trilhas entrelaçadas, labirintos na palma da mão,
Seria a razão do destino, uma distimia do coração?
Dizem que nada não se perde, tudo se transforma,
A mais sublime doutrina, na palavra mais jocosa,
Busque na teontologia, homem vil e mal dito,
Os destinos entrelaçados, circunscritos na mão o labirinto?
O olho esquerdo, cego e obtuso
O olho direito, miríade solar, sábio e sisudo,
Esclarecido como cego, vejo o que me ilude
Entorpecido do Verbo, torno-me vago e rude.
Se a consciência me persegue, é porque Deus a acusa,
Se o homem concede, é porque não resistiu a luta
Se a mente aquiesce, é porque no não saber-perambula,
E onde os demônios se divertem,
É onde mora,
A Rainha da Lua.

Paulo Santucci

 A hóstia do Diabo

Pelo vale das sombras, um mercado
O mutirão de almas de um homem só, enfileirado
Pelas muitas sendas se vai, ao encontro do infortúnio inesperado
Na fila infinita, o homem esperar pagar a ninharia de sua vida, ao Diabo.
Prometeram-lhe muitas rendas,
Num casebre só, envelheceu, endividado.
Prometeram-lhe muitas terras,
Envelheceu só, subsidiário.
Noutrora fora jovem, muitos anos se passaram,
Noutrora fora belo, a carne a si mesma os ossos chupavam,
Noutrora fora rico, agora sua alma havia arrendado.
Houve um tempo em que muitas questões o tornaram perplexo,
Agora és um homem sem dúvidas e sem nexo,
Esperando pela vindoura recompensa do futuro retrocesso,
Com fuligem na garganta, abscesso nos pulmões e doença nos plexos.
Tateia na areia o tempo que esgota entre os dedos como numa ampulheta,
Olha o infinito sem enxergar nada finito que o entretenha,
O vale das sombras se põe na alcova cérebro fugitivo,
Que por endereçadas esperanças almeja o que o torna aflito.
Haverá recompensar por trabalho árduo e sem sentido?
Haverá punições por tempo desperdiçado e desmedido?
Aquele que escolheu como algoz, em sua mente,
Deverá ser temido ou simplesmente, esquecido?
Assim, passa dia após dia, nasce sol morre lua,
As crianças, agora adultas, dantes, perambulavam pela rua,
A fazenda, arrendada, donde cresce-se arvore, mas não fruta,
O homem que pela escassez de pensamento, não teve glória tampouco luta.
E assim permanece a fuga.
Vendera suas terras para um futuro entrevisto,
Campos Elíseos e panteão sob jugo de Dionísio,
A fêmea dá cria e o filhote nasce comprometido,
A ser ceifado pela morte que tudo espreita, penetra e abarca no seu rito.
Entrevendo outras maneiras, recorre sempre aos maneirismos,
Procurando outras formas de descrever, seu monótono solipsismo,
Alma espectadora do corpo, num infernal paralelismo,
Pouco caso faz de si, vivendo só como homem ínfimo.
E o homem morre sem saber,
Apenas é espectador do funcionamento dos seus órgãos, sem nada conhecer,
O olhar antes tenaz, agora se mostra lânguido e atarantado,
E o paladar padece o gosto da Hóstia do Diabo.
Paulo Santucci

 Finito

Desnudando o mundo,
Com apenas um par de olhos,
Admirável é o assombro,
Que me toca os ossos.
O universo é incomensurável, infinito,
Já eu tenho fim, e solitário, gravito.
Mais infinitas são também as indagações,
Que atravessam a humanidade, comuns à todas às gerações.
Uma vez que tenho fim,
Porque tão difícil conhecer-me a fundo?
O mundo que percebo também percebe a mim.
Mas sou apenas um, vivendo só, neste mundo.
Mesmo tendo companhia, caminho só e sem pares,
Impertinência e imaginação são sempre familiares,
Os astros brilham e deixam-me só sob o brilho oculto,
Olhar para cima ou para dentro, é o covil do submundo.
O infinito esmaga quando abate a fronte,
E perdido em minha órbita, fico cego quando miro o horizonte.
No céu as estrelas brilham, e com seu brilho inspiração,
Tanto serve para o bem quanto para a perdição.
Pois o universo é imperioso e não admite ser subestimado,
E quanto mais me inspira, mas ainda me sinto aprisionado.
Prisão etérea, de pensamentos que buscam concatenação:
Maldito universo,
Misteriosamente me atina,
Cobrando-me reflexão.
Mas sou apenas um, só e com limites,
Porque então consternar-me quando a magnitude me aflige,
Seria soberba temer algo maior do que meu eu
Deveria então venerar Buda, Krishna ou Deus?
Mas se para o homem primitivo o fogo era um ser sagrado,
E que vivia sem úlcera, postergando sua existência aos astros,
Egoísta sou, dentro de meu filosófico primitivismo,
Tentando deixar minha trilha de rastros,
Através de um método racional e introspectivo.
Ah, mas esse universo que a todos abrange
Infinitude que inspira, amaldiçoa, constrange.
Deveria contentar-me com a estupidez possível,
E assim fazer-me menos perguntas,
Ou contentar-me com a sabedoria inverossímil,
Num universo onde nada é dado, e que tudo, permuta.
Soberba derradeira, nos meus olhos pequeninos,
Minhas mãos tateiam o ar mas nada, atinjo
Perdido entre cometas e constelações,
Preencho e a mim e ao que vejo com dúvidas e indagações.
Universo que castiga, pune e age,
Sobre qualquer um que o subestime com a indiferença do ultrage,
Sei que minha ação é pensada e não retroage,
Então melhor pensar só sob a alcunha do astro que me abate,
Nasci sob uma égide, fadado ao signo
Personalidade insana, a mim não admito
Então lanço para o ar a idéia que atino,
Seguindo com a visão os astros que mesmo na imaginação não atinjo.
Não me sinto nem nunca me achei sábio,
Mas já descobri que não há diferença entre um bloco de notas ou um alfarrábio,
Quando trata-se de discernir o julgo dos astros,
Porque na verdade é que realmente me sinto aflito,
Quando perco-me de mim no universo infinito.
E assim calcando o verbo, tenaz e rijo,
Desdenho o universo e agarro-me ao que sinto.
Paulo Santucci

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

 Prólogo do coração


Algum talento em dizer por vias tortas,
Sobre os mistérios que passam pela aorta,
Sem prumo, vagueando alhures, sem rota,
Palpita-me no cérebro aquela emoção que denota:
(algum sentimento furtivo)

Há algo a dizer, que talvez já tenha sido dito
Um sussurro, um grito, ao pé do ouvido.
No plano mental uma algazarra de sonidos.

Ao pé da cama, o joelho toca o chão,
Tímido ao falar com os astros, esbravejante em comoção,
Há de se pedir:
Desvanecer-se o inferno e o apetite de glutão,
Que consumindo minhas internas palavras,
Faz-me perder o tino da razão.

Encontrarei sentido na mixórdia,
Que pulsa firme na carótida,
Dentro da garganta uma potencial rapsódia,
Para descrever um eu onírico, fora de órbita.

Para comigo, não tenho segredos,
A escuridão vejo com meus olhos crus, tanto que até desconheço:
A claridade que cega é a obscuridade do relampejo:
Do verbo cruel,
Feito da carne que em mim, amorteço.

Os dias são passados,
O presente é obscuro
Um momento inesperado,
É necessário,
Para ter o que vislumbro.

No jogo da sorte basta rolarem os dados,
Para se ter a quantia que procuro,
Para saber a quantos passos largos,
Estou distante do futuro.

(Até lá viverei meus dias,
Com a glória de um infante,
Mas com o pesar do luto.)

Paulo Santucci

 O Mar


Ò mar que me engole por dentro,
Quanto mais bebo mais fico sedento,
Ficando só e ao relento,
De um incognoscível sentimento.

Paixões furtivas
Sopram como brisas,
E a pele até arrepia,
Ao proteger o inviolável (feito de carne) monumento.

Transcendendo as sombras,
Para com a visão alcançar,
O que jaz além da meditação mundana,
E assim ver-me afogado em outro mar.

Som que reverbera do ego,
Para o silêncio é um tenebroso eco,
Da voz sufocada,
Pelas mãos que tentam o verbo, sinalizar.

Labirintos de palavras e frases,
Algazarra de som, semântica e sintaxe,
Pelo vão da alma,
Um novo código a se expressar.

E, contento, sou,
Porque sei de meu ser um pouco.
Cá e lá, e aonde estou
Se falo mais de mim já fico rouco.

E assim,
Iconoclasta dos filósofos antigos,
Sou aquele que se joga ao rio,
Para flutuar no mar.

Paulo Santucci