domingo, 23 de fevereiro de 2020

Paralelismo psicofísico
Eu sou o que sou,
Sou também onde estou,
E quando saio, sou o que ficou.
Nas lembranças alheias,
Tudo aquilo que restou.
Não sou minhas pernas,
Mas preciso delas para andar.
Não sou meus braços,
Mas sem eles iria me afogar.
Não sou meu cérebro,
Mas preciso dele para duvidar.
Sou parte de meu escrutínio,
E sem silogismo, não raciocínio.
Não sou tudo o que eu penso.
Mas tudo que penso, sinto.
Sou apenas um refugiado,
No covil mental em forma de labirinto.
Porque neste paralelismo psicofísico,
Sou corpo mais mente, advindo.
Um entre alguns,
Só e somente só,
Mas nunca nenhum.
Dividido entre a carne e o pensamento,
Tragando palavras no relento,
Faço da dádiva do verbo o meu ensinamento
Para buscar neste louco paralelismo,
O meu insano discernimento.
Paulo Santucci

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Letras

Preciso de um trago,
Preciso de letras,
Ou qualquer idéia vaga,
Com gosto de certeza.

Preciso de gente,
Encontrar-me ei na balbúrdia
Só assim esquecerei,
Das palavras más, tolas e estapafúrdias .

Quero escrever demasiadamente,
Tornar-me escritor,
Mas não quero acabar:
Como Oswald Bereford.

O relógio, novo advento do tempo:
Atrasa os desafortunados pensadores barulhentos.
Quero escrever com árvores ao relento,
E doar os meus versos,
Para os engenhos de vento.

Não quero água
Mas preciso de sede,
Ou qualquer instinto,
Que não me prenda na virtual rede.

Ora sou filósofo, ora sou ator
Descobrindo cenas,
Entre o júbilo e a dor.

Não preciso de dinheiro,
Não preciso de mulheres,
Apenas que se afastem de mim,
As pessoas que mal me querem.

Preciso de frases, versos e letras
Que componham um quadro,
Pintados por cegos.
E peço aos artistas do cemitério:
Venham me velar,
Enquanto deliro certezas.

Letras, codificadas em frases,
Que sibilam no cérebro
Formam as virtudes,
Aquelas que estão,
Entre a fraqueza e a grandeza.

Todavia, não se encontram mais nas prateleiras.

                                                     Paulo Santucci

domingo, 22 de dezembro de 2019

O Hospital

No hospital,
O Anjos da Noite vêm de branco,
Escutar bem de perto, com o estetoscópio ,
O grunhir do pranto.

Doutores da dor, preconizam a morte:
E enfermeiros velam os doentes,
À deriva de qualquer sorte.

No mesmo lugar donde chega-se ao mundo
Pode-se ver de camarote, o fim de tudo.

O sangue vermelho jorra,
Nas veias de um corpo desnudo.
O coração desfolegado bate,
Cansado e imundo.

Lá,
Tanto o homem novo quanto o velho,
São mortais e deletérios,
Liquefazem-se como água,
Transformam-se em ossos etéreos.

No corredor,
Um barulho de máquina e de gemidos,
Sussurram como uma boca cálida,
Bem ao pé do ouvido.

Esperando, no quarto tedioso,
Paciente da enfermidade
Vislumbrando o horroroso
Para conhecer minha quididade.
(Anos-luz se passam...)

O hospital,
É um lugar transitório
Entre o vivo e o peremptório.
De nenhum modo satisfatório
Contudo, um lugar meio-termo entre a vida e a morte
Não seria o próprio purgatório?

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Tolo sem ouro
Perscrutando horizontes longínquos,
Buscando brumas bem de perto do fim do abismo.
Ele devaneia e não pensa consigo,
E busca na mão que o derruba um amparo amigo
Sozinho, gravita no universo de seu umbigo.
Suas questões paradoxais são falácias que imprimem a face de seu histo,

A cada esquina da rua, acende um cigarro e traga seu suspiro,
Busca em milhares de palavras uma desculpa para o seu ceticismo
E vai ao terapeuta para ouvir a si mesmo, com devido escrutínio,
Que sua anedonia está lhe afetando o raciocínio
Mas a palavra não cala, irrompe no córtex cerebral
Emerge em forma de atos falhos, cismas e comportamento animal

Com Cronos e Tânatos, ele corre contra o tempo
Disputando com um parceiro desleal,
Seu algoz ego ferido, àquele que atinou contra seu maior ideal:
Viver uma vida feliz, como todos os outros vivem
E como um tolo sem ouro ele resfolega e sobrevive.
Mais alguns dias...
Pois na vida só a morte é que persiste.
Paulo Santucci
A lógica do irracional
Deparei-me com uma questão colossal,
O que subjaz à alma humana neste mundo infernal?
Nos dias de hoje, anjos choram e demônios cantam,
E o homem fleumático procura conhecer a si mesmo, no entanto.
O gozo da vida é a busca final para muitos,
Que, cegos da mente, vâo ao encontro de seus próprios
augúrios.
Perfilam-se em linhas horizontais na fila dos bancos,
Para assinar o contra-cheque de seus próprios desencantos.
O homem racional esmorece com seus próprios anseios,
E ao dormir à noite, sonha com seus próprios devaneios.
A luta é contínua, a marcha é rítmica,
E o homem continua em frente com sua bronquite, asma e arritmia cardíaca.
Não há tempo para o Belo, nem para o Sublime,
E o espelho da contradição é a televisão, que a noite, ele assiste.
Trocaram os valores, não há mais xis sobre ípsilon,
A álgebra da vida mundana é feita para formular em sentenças, a penúria do impossível.
O sonho mudou: ganhou novos limites,
Agora serve para aceitar tudo aquilo que a razão não admite.
Pela manhã, um hiato para pensar entre a xícara de café e o cotidiano papel de jornal
A bebida desce com gosto de pressa, e também de confusão
E durante o dia, o homem inconscientemente responde a si mesmo, com tímida satisfação,
Mil perguntas que não calam (e que não ouve); certamente um dia, à certa idade, virão.
E saciando a si mesmo, o homem segue sem perceber a óbvia contradição,
E a pergunta que não cala, deveras abissal:
Para viver neste mundo, seria então necessário
Abrir a mão e deixar viver o pássaro
Ou então escrutinar (com afinco),
A lógica do irracional?

Paulo Santucci

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Homem da rua
Ali jaz um corpo vivo
Bem no meio da calçada. Entre os carros e os transeuntes
Suas raízes fincam o solo
O chão é o seu lugar, lugar qualquer e lugar nenhum
Ali está um homem aflito
Bem no meio da praça, ao figurar o seu lugar entre os que passam
Não pertence a ninguém. Suas raízes morais o prendem no subterrâneo
O chão é o seu dormitório, e tudo o mais na sua vida: transitório
O homem da rua envelhece sob o olhar de muitos
Alguns lhe dão atenção, outros, augúrios
“O que fez para estar nesta condição. Certamente, merece”
E é nesses momentos que a Cristandade padece.
O homem da rua é pior visto que os ratos.
(Mesmo esses ocupam espaço com o medo que causam)
O homem da rua é pior visto que as baratas
(Mesmo essas causam alvoroço nas moças que passam)
E ele continua ali. Implorando, mendigando, se arrastando
Sua barba cresce com o tempo: só faz aumentar a sua sombra
Sombra que o serve de alento e esconderijo,
Está sempre escondido, mesmo quando por muitos, visto.
Às vezes tem por companhia uma garrafa
Ás vezes tem por regozijo um prato de comida
É o maior espectador da vida social,
Contudo, o personagem mais subestimado da vida moral.
E vida que segue.
Quem liga para o que acontece,
Com um homem que certamente tem o que contar sobre a vida
E que reside no labirinto formado por ruas e avenidas.

terça-feira, 22 de outubro de 2019

Inspiração
Outro dia, o Diabo me bateu à porta:
“Venderias sua alma por um pouco de inspiração”
Disse-lhe:
“Vade reto sem olhar para trás! Mesmo o que eu não tenho, já sei de antemão.”
Insistentemente, ele perscrutou-me
“Julga por palavras tortas conhecer seu coração?”
Retruquei: Vê se não me incomoda! É acima do meu umbigo que mora a minha razão!”
Passaram três dias sem ninguém bater à minha porta...
Outro dia, apareceu um pastor à minha porta:
“Tem dez minutos para conhecer a palavra do Senhor”
À moda de Sócrates, respondi-lhe:
E esses dez minutos fariam aumentar o meu dissabor?
Este nunca mais me apareceu à porta.
Passou-se mais um dia e veio um vendedor:
“Já sabia que há falta de santos no paraiso. Não gostaria de comprar a sua entrada?”
Respondi-lhe: Vê se não me esgota a paciência: da luta contra os demônios eu ganhei e foi de virada.
Este nunca mais me apareceu à porta.
Passou-se uma semana e desta vez um deputado:
“Vamos mudar o país, se eu conseguir o seu voto.”
Vossa excelência, me perdoe. Da sua ciência não sou devoto.
Passaram-se três dias e apareceu um bêbado à minha porta:
“Senhor, desculpe lhe incomodar, mas eu preciso é de cachaça”
Eu respondi-lhe:
“Meu senhor, você angariou meu coração. Diga-me quanto precisa para um mês inteiro?”
“Trinta reais, senhor.”
Tudo bem, lhe darei sessenta, volte daqui a trinta dias e diga-me o que aprendeu.
Trinta dias depois o bêbado na minha porta bateu.
Perguntei-lhe então, o que aprendeu?
“Bebo para suporta a amargura da vida,
Fico feliz quando vejo a amargura descida,
Cambaleio e caio para lembrar que há sempre uma subida
Canto e abraço o acaso de mãos estendias.”
Bravo, disse-lhe.
O bêbado então perguntou:
“Meu senhor, para que fez isso?”
Analisei a sua lógica,
De todos que bateram a minha porta,
Só vi em você o sinal de nenhuma contradição.
Mais que isso, ofereceu-me algo maior que a razão.
Senão o estímulo para continuar a pensar, talvez a própria Inspiração.