segunda-feira, 30 de setembro de 2019

A musa
Os instintos urgem,
A boca cala.,
A mente aquiesce.
Era dia. Apagou-se a tarde.
Agora anoitece.
A noite é uma devassa,
De saia curta.
E eu me ponho a encontrá-la,
Em qualquer rua escura.
A noite é uma Musa,
Que inspira os passantes.
Que pelo caminho torto da vida,
Beijam suas amantes.
O luar é seu holofote,
Sombrio, túrgido.
O convite é seu decote,
Para um beijo obscuro.
A musa inspira, a musa enlouquece.
Inebria os poetas com seus versos em vestes.
E enquanto tenta se recuperar o senso de decência,
A musa os enlouquece com pensamentos de concupiscência
.
Seu andar capta olhares,
Imagem são gravadas nas retinas hipnotizadas,
De homens que de covarde não tentam conquistá-la,
Mas se contentam em vê-la de mini-saia.
Ela dança, gira, rodopia
É o carnaval de uma pessoa só na avenida
A musa inspira, mas também enlouquece,
(Aqueles que tentam vê-la por debaixo de suas vestes)
A musa inspira, e o homem suspira
Sai derrotado no combate das suas paixões
Solitário em casa, não pensa noutra coisa senão na próxima sexta-feira
Pensa somente em vencer o medo e as próprias tentações.
A musa tem sua razão de ser,
Seu corpo composto por versos, da sensualidade fez seu poder.
E o homem que a queria ter em seus braços
Da bebida amarga guarda o gosto embriagado,
Todavia, não se admite derrotado.
E a cada sexta-feira
Põe-se então numa nova empreitada
De rever a sua musa, tão almejada
(Amada, odiada e cobiçada)
Fazendo inveja a própria Vênus
Ao desfilar na rua de mina-saia.
Paulo Santucci

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Cotidiano
Cotidiano é o inferno urbano,
Estamos presos á uma bola de ferro chamado vida social.
Dormimos no paraiso onírico e acordamos pedindo que nos livrem de todo o mal.
O ritmo dos sonhos é uma valsa dançada como uma bela mulher,
O ritmo da vigília é uma dança com o diabo personificado numa pessoa qualquer.
Perambulamos por labirintos, perscrutando a saída do abismo,
Buscando uma fuga ao eu, para não nos sentirmos sozinhos.
A mente é incansável, a carne é fraca.
Andar no caminho certo, para não tropeçar na vida depravada!
Quanto tempo temos de vida, quanto tempo temos de morte?
Utlizemos então nossos métodos racionais, para não ficarmos à deriva de qualquer sorte.
Deveríamos então, andar de mãos dadas com a loucura e a sanidade,
E buscar fazer o bem, e evitar toda a maldade?
Melhor recorrer aos santos, da paciência eles se fizeram mistereres.
Talvez seja melhor viver a vida corrida, e evitar ser triste.
O relógio não pára nem anda para trás,
Melhor andar no ombro dos anjos, e para longe o Satanás!
E se a solução não for o remédio, e a busca não for a cura
Que Deus se apiede de nós, mas não nos deixa sucumbir na loucura!
O cotidiano é implacável. Algoz, feroz, inextrincável.
Viver já é uma proeza, algo sublime e admirável.
Lidar com o Ser, buscar as notas certas da harmonia,
Criar uma canção nova, mesmo que seja de melancolia.
Viver é viver, não tem meio termo.
Procurar-se-á o saber para não padecer enfermo.
E assim se passam os dias, e voam as páginas dos calendários,
E qual juiz julgaria o que fizemos desse tempo?
Nesse caso ainda somos reús primários.
Paulo Santucci

terça-feira, 24 de setembro de 2019


A medida exata do exagero

Dizem que aprendemos com os erros
Até mais do que com os acertos

Dizem que a ignorância é um breu
Até o momento em que a sabedoria ainda não veio

Fugitiva mente que anda pelos becos
(Becos da razão)
Espreitando e escrutinando a  lógica dos bêbados
(Bêbados de vida)

Atentar-se-á viver livre dos pesadelos
Dormindo  acordado na grande noite do tempo
(Tempo restante daquilo que nunca acaba)

Pôr-se, então, à procura de um novo espelho
Que retrate o homem anacrônico de acordo com o seu exagero

Pois seria mesmo a razão uma medida exata
Para viver a vida livre do desespero?

segunda-feira, 9 de setembro de 2019


Retidão

Faz tempo que não há nada de novo no céu
A escuridão pegou emprestado o horizonte para si
E a lua, tímida, trepidante...
Agora oscila.
Mas ainda aparece para brilhar
Assim, à noite, quando caminho
Espero ouvir do vento meus murmúrios escondidos,
A noite alisa os meus cabelos com o seu soprar
E quando expiro, sopro de volta meus silenciosos tormentos.
As marés enraivecidas do mar de Copacabana,
Tentam tirar minha atenção com o estalar de suas ondas                         
Oh, afasta-se de mim Oceano
Pois hoje quero permanecer só.
Na companhia de minha retidão.
                                                         Paulo Santucci

O vento

Cá onde estou, a paisagem de que também sou parte
As janelas abertas. E vejo a montanha sob a luz sombria de uma lua incandescente
Vejo as curvas de pedra, que tornam aprazível a miragem do infinito
Mais próximo de mim os galhos de jacarandá trepidam com o vento rutilante
Sinto-me parte de tudo aquilo, e entendo o sentido da contemplação.
Medito com meus livros. Mas o vento não cessa de soprar. Mesmo quanto se extingue
E de repente sinto o vento de memórias pesadas.
Sinto o vento dos que já se foram.
Sinto o vento daqueles que  fazia tempo que eu não pensava, mas ainda continuam aqui, ali e noutro lugar do universo.
Percebo então que o vento carrega tudo o que toca e para ele nossas almas são flores levadas para brotar nas almas de todos que nos foram próximos.


A Dor
Parcas cargas d'água
De um rio que secou
Dentro da garganta não há lágrimas
Para um sentimento que o peito arrebatou
Dizer-se á que o choro preenche o tempo
Mas o que fazer depois que já se chorou?
Implora-se e pede ao vento
Pra trazer o que não se buscou.
Contetar-se à com o contentamento
A Distração para abstrair o tempo
Ó Sombra que me sevre de alento
Desce sobre mim,
Refúgio meu do isolamento.
Pois ainda paira
Entre a felicidade e mim,
O sofrimento.
                                                                      Paulo Santucci

domingo, 8 de setembro de 2019

DESCARTES E FREUD
Descartes: Penso, logo existo.
Freud: Penso porque sinto.
Descartes: Meu saber é claro e preciso
Freud: Meu saber é obscuro e indeciso
Descartes: Raciocínio, sim. E dúvidas... não admito
Freud: São as dúvidas que moldam o saber que é meu edifício.
Descartes: Dos mistérios ocultos, vislumbrou tornar-se mister e erudito
Freud: Das palavras procurei entender o saber não-dito
Descartes: Das baixezas do ser divagou sobre conhecimento reles e perfídio
Freud: Das profundezas da mente, tornei coerente o que era incompreendido.
Descartes: Aprofundei-me sobre o estudo da mente e descobrí o verdadeiro mecanicismo
Freud: Curei centenas de doentes e descobri que o sofrimento não era tão doentio.
Descartes: Tens angústia porque procurou entender o incognoscível
Freud: És indiferente com o lado oculto do teu ser, que é sublime e verossímel
Descartes: É loucura tentar entender o que jaz sob o jugo do indiscernível
Freud: Não é sabedoria somente entender o que parece lógico e perfectível.
Descartes: Fui notável em minha época e inaugurei o racionalismo
Freud: E não foi a toa que ao morrer teve a cabeça separada do resto do seu organismo!
Descartes: Não foi a pneumonia que me matou, e sim, meus opositores. Maldito empirismo!
Freud: Viu, não somos tão diferentes assim. Ambos procuramos o que julgavam estar... perdido.
Descartes; Para finalizar esta discussão, que tal bebermos um absinto?

Paulo Santucci
Tempo Mordaz

Aniquilou-me cada segundo,
De recém-nascido, cresci-me moribundo
Dando voltas pelo mundo,
À espera de um lugar
Viajei pelo obscuro,
Encontrei luz na sombra de um muro,
E lá, então, pus-me a pensar
Se o Presente é um momento passado do Futuro
Se o gozo da vida é tal qual o gozo do luto
Se a esperança é a lástima do homem irresoluto
Em qual caminho, então, deverei me esperar?
Tempo ansioso,
Faz girar os ponteiros de modo desgostoso
Enruga a pele, enfraquece os ossos
Assusta a vida, açoita os mortos
E traz a fadiga ao trabalho por demais ocioso.
Fico então, á espreita, dos minutos
Que se liquefazem, no relógio obtuso
As horas são traiçoeiras, os minutos são agudos
E o tempo passa ainda mais rápido, na hora de descansar.
Paulo Santucci