Mansão dos mortos (Inferno de Dante)
Desci a mansão dos mortos,
Não como Cristo, e sim como Dante,
Traído pela perfídia dos anjos,
Ví-me na mão de horrorosos necromantes.
Pus-me então em retiro alto,
Ao longo do rio Aqueronte,
Avistei almas lânguidas e sombrias,
Sem qualquer brilho na fronte.
A frente, então, altivo,
Encontrei-me com o poeta Vírgilio,
Prometendo-me companhia e sigilo,
Levou-me pelos vales do inferno introspectivo.
“Estás vestido de carne e osso,
Mas de algo faz desuso,
Para estar vivendo esse período umbroso.”
Animado pelas palavras pouco felizes
Guie-me então pelo o que ele me disse.
A humanidade é efêmera, mas Deus é eterno.
Na companhia de Vírgilio, então,
Adentrei os círculos do Inferno.
Já sabendo de antemão,
Que o horror da morte combaliria minha razão.
Nas minhas retinas, salpicaram horrores
Ao adentrar pelo Vale das Dores,
Tomado de emoção, ví, alí, no primeiro círculo
Tilintando de medo, o próprio Abraão.
Ví outros que nenhum pecado haviam cometido,
Mas que por não terem sido agraciados pelo batismo,
Morreram sem terem conhecido Cristo.
Foi assim que então, no primeiro círculo do inferno.
Abrãao se acalmava ao ouvir as estórias de Homero.
Adentrei outro recinto,
Cujo chefe era o próprio Minos,
Que esbravejava e enrolava sua cauda,
E a um diferente círculo, a cada dada volta ,
Uma alma ia para o abismo.
Tamanha pintura, uma gravura exata do surreal,
Minos punia os que sucumbiram ao prazer carnal,
Para ele a mais aprazível anedota,
No momento em que punia própria Cleópatra.
Agora no terceiro círculo do inferno,
O raivoso cão Cérbero,
Alimentava-se do outrora fora vivo,
Agora pútrido e deletério,
E como fera sem temor embarreirava meu caminho.
Famigerado e desmedido,
Devorava e açoitava de modo isócrono,
Aqueles que noutra vida,
Foram conhecidos como gulosos.
Prosseguindo na senda ao horrendo,
Ví o fim do homem avarento,
Diante de Plutão, deus dos mortos
Sob seu julgo, arrochava também os pródigos.
Tendo os açoites como alcunha,
Ví o fim dos que se dedicaram à Fortuna.
Navegando no rio Estige,
Emoção maior não tive,
Ao quase ser posto para fora do barco,
Por um vulto, da horda dos irascíveis.
No sexto círculo, ví o fim dos heréticos,
Com olhos famintos e corpos esqueléticos,
Vivam sob o feitiço da bruxa Eritone,
Por terem renegado Àquele que esqueceram o nome.
Horror maior é aquele que não se espera
Ao ver por cima da torre a Fúria Megera,
Com cabelos de serpentes,
Sorria um sorriso maléfico,
Ao qual, uma vez visto, não se esquece dos dentes.
Maravilhado pelo horripilante,
Ao ver o a justiça divina, em seu modo discrepante ,
Senti tremer-me os ossos,
Quando à vista da Medusa, tive que cobrir os olhos.
Pavor maior nunca me fora dado,
Senão o de morrer petrificado.
Nos preâmbulos do sétimo círculo,
Infeliz e nem um pouco fausto,
Ví brandir de fúria Minotauro,
Recriminando os que adentram aquele recinto.
Pecador pior que a concupiscência,
Neste andar pagam os que cometeram violência,
Sejam rebeldes ou obnóxios,
Pagam mais ainda,
Os que a cometeram a si mesmo, do que ao próximo.
Se há luz ou trevas na penumbra,
O cego já sabe de antemão,
Foi então que galguei ao oitavo círculo,
No reluzir das asas de Gerião.
Descí então em Malebolge,
Para ver os que usura não mostraram arrependimento,
E cometeram o pecado da fraude,
Ví à olhos nús e com descontento,
O reluzir das luzes da morte.
Tendo a cabeça voltada para as costas,
Só podem enxergar o que para trás ficou,
À essas alma penadas que agora buscam soluções sem respostas,
Remoendo o passado que pouco restou.
Também ví os apenados que sofrendo moral demência,
Praticaram o tráfico de influência,
Todavia, tão presos e desmedidos,
Pareciam esquecer o porquê de serem punidos.
Há também ladrões que do pecado não padecem,
E transformados em cinzas,
Tão logo renascem.
Cheguei ao final do Inferno,
A figura de Lúcifer, a espreitar, tão apavorante
Mas sob a sombra de uma luz mais alta,
O gigante se reduziu à um infante.
O inferno que deixei,
Alguma parte, dento de mim, jaz
Do inferno eu recuperei,
Algum conhecimento que me valha a paz.
No paradoxo da vida,
A eternidade é a morte,
Pois para a penalidade cometida,
A Providência não encontra óbice.
Paulo Santucci