quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

 Perene


O corpo dilata-se, expande-se sob o luar,
Caráter ressequido, tendões do pensar.
Sepulcro sagrado, epitáfio dos pensamentos,
Carne degradada, pelos mais cruéis sentimentos.

Volto ao trabalho, desfrutando de alegria momentânea,
Prescrevo pílulas de felicidade,
Para momentos de insânia.

Há momentos que de nenhuma enfermidade, padeço.
No trajeto de minhas íntimas convicções, ergo-me enquanto cambaleio.
Nas meus severos auspícios, minha mortandade, amorteço.

Às vezes sou aéreo,
Às vezes sou lunar.
Bebo da água do rio,
Regurgito a água do mar.

Sobressaltado e sobreavisado,
Sei de mim mesmo o que já não esqueço,
Mas basta olhar-me no espelho,
Para ver o que nunca vejo.

Tamanha é a ilusão dos sentidos,
Fazem da carne um abatedouro de emoções,
Na garganta um mental sonido,
Reverbera-me uma sinfonia de elucubrações.

O peito é arrebatado,
Pela transitória reflexão,
Vejo-me só e tumultuado.
Resfolegado pela soberba aspiração.

Quero juntar-me aos astros,
Brilhar em harmonia em conjunto,
Não quero esperar pelo fardo,
De ser reconhecido enquanto defunto.

Esgueirar-me pelos rastros,
Que deixei ocultos.
Brincar no labirinto,
Que uma vez chamei de mundo.

Mas não há é regra para o sonho,
Como dizia o pensador,
Enfrentarei o íntimo demônio,
Sob a alcunha de salvador.

Assim então viverei meus dias,
Ébrio do êxtase e abstêmio da agonia,
Á sorrelfa de mim mesmo,
E livre da anedonia.

E então, em meu derradeiro momento solene,
Fustigado dos ossos e da vida que mente,
Escreverei sobre o prenúncio de um novo mundo,
Trancafiado num corpo perene.

Asfixiado num corpo desorientado,
Sou a alma que sente.
Paulo Santucci

quarta-feira, 7 de outubro de 2020

 Água

Da arca que navegava no fim do mundo,
Era eu passageiro, tripulante e observador do dilúvio.
Água que surge, não se sabe de onde provém o manancial,
Água presente na certeza e na dúvida, e de toda questão primordial.
Água,
Corre pelas veias e artérias,
Deixando a cabeça aérea.
Água que bombeia o peito,
Para depois o encher de idéias.
Água que orienta a navegação sem prumo,
Atordoada mente que perscruta a si, sem rumo
Água que afoga e socorre o nadador moribundo,
Água que derruba muralhas, prédio e muros.
Ébrio das palavras que sinto no meu corpo d’água,
Sinto a secura da semântica salgada.
Concatenando verbos, expressões árduas,
Escrutino meu ser como um perfeito iconoclasta.
Movimentando as engrenagens do meu ser,
A água está lá, debaixo da pele e da onde não se vê.
Enquanto formulo minhas sóbrias aspirações,
A água transforma os sentimentos em soluções.
Água,
Varre tudo para dentro,
O que é mole vira cimento.
Água presente no júbilo e no enrubescimento,
Milhões de neurônios disparam num simples intento.
Tal qual uma garrafa atirada ao mar,
É meu copo no ato de pensar,
Entretendo-me com o ato de estar,
Sou o timão de mim mesmo, vendo a onda passar.
Água,
Nunca o suficiente para saciar,
De tanto pensar sinto até mais sede,
Meu eu retorna de onde nunca esteve,
Ébrio de um copo repleto do falar.
Enchendo os rios e os oceanos,
O plasma sanguíneo e o líquido cefalorraquidiano,
Água que sai pelas lágrimas e que sorve o pranto,
Movimenta os músculos, no riso e no espanto.
Tal como se move uma idéia certeira,
Sofro de “hidrofobia” (não daquela que matou a cachorra Baleia*)
Afogado nos mares que transito,
Ressurjo na margem, num dia bonito.
Não tão corajoso tão pouco espavorido,
Todo dia bebo um pouco de mim,
Uma garrafa inteira de sentimento líquido.
*alusão a personagem de Vidas Secas, de Graciliano Ramos.
Paulo Santucci

 Quididade

Na incessável busca pela minha quididade,
Navego nos mares de lástimas da humanidade.
Como um pintor que nas sombras pinta o reflexo da Realidade,
Tal qual um estranho pondero sobre mim com estranha cumplicidade.
Travando no peito uma infiel comoção,
Nas veias, um labirinto de emoções que jorram no coração.
Filosofia perene, ao se desfazer deixa um vão,
Instransponível obstáculo entre a dúvida e a razão.
No cair da noite, uma promessa de ilusão,
De ver sob a luz do dia do problema a solução.
Estranho pacto, sereno e íntimo,
Nas palavras que jogo ao ar, dizendo, comigo:
“O pão de cada dia engulo seco e azedo,
Não sei se é o sal ou o se é o fermento,
Alimento que nutre os ossos, como a luz nutre a escuridão
Na língua o gosto do ócio, no estômago a indigestão”.
Enquanto o sol está de pé calço a mim e aos sapatos,
E por onde perambulo, deixo discretos rastros.
Se quem está a me guiar sou eu próprio, ou as covas de meus passos,
Reluzo na fronte minha ambição e ao caminhar, a mim mesmo, perpasso.
O sol se deita e já é tarde para se pensar,
Todavia quando a boca se cala a mente põe-se a murmurar.
Estranha via de duas mãos, é o horizonte infinito a se espraiar
Para muitos caminhos leva, mas não para algum lugar.
Assim, na minha jornada muitas linhas teço,
Tal qual a aranha que para a presa constrói o seu enredo.
Das palavras tortas ao prosseguimento,
Minhas concatenações ilógicas, ao menos, eu amorteço.
Se estou certo ou errado, pouco me comprazo.
Faço da busca meus afazeres, minha rotina e meu compasso.
E assim, rígido em minha mortalidade que se liquefaz,
Busco pela minha quididade, na forma que me apraz.
Paulo Santucci,

segunda-feira, 22 de junho de 2020

Camaleão
Ao invés de falar sozinho,
Resolví falar comigo,
Adentrando uma fina penumbra,
Donde construí meu abrigo.
Paciente de muitas dores,
Amante de poucos amores,
Pela senda do insondável,
Vislumbrei sonhos aterradores.
Sempre em pauta com o senso ético,
Camuflando na existência como um réptil,
Liberando loucura, ao abrir da mente o alçapão,
Medonho destino, de viver como camaleão.
Cego das luzes evidentes,
Clarividente da luz oculta,
Não há mais o que discernir, entrementes
O vão que separa a sanidade de loucura.
Saudosa luz da penumbra,
Que nos tempos de adolescente,
Com a razão fazia permuta,
Com o coração a tudo, abrangente.
Mudo de cor, mudo de dor
Através da metamorfose metafísica,
Enceno a vida tal qual um ator,
Que esbraveja com asma, bronquite e tísica.
Tão logo me acham,
Tão cedo me camuflo.
Tão tarde me rasgam,
Torno-me um eloquente mudo.
Assim vão se passando as noites,
Assim vão se passando os dias,
Mesmo sendo animal não sou dado a açoites,
Mesmo sendo escuridão,
Não abandono a luz que me cria.
Tampouco cansado,
Tão pouco vivaz,
Melhor ser um camaleão camuflado,
Do que um inconveniente loquaz.
E assim, conto as estrelas que caem,
Pelo universo quântico,
Sou um camaleão que aos outros distrai,
Camuflado num poeta romântico.
Paulo Santucci,
Passageiro
Perscrutando minha existência,
Sob o alpendre da luminescência,
Fazendo uso de minha lânguida inteligência,
Retorquindo o Verbo com o meu pensar.
Com um pingo de decência,
Desnudo-me com displicência,
Só e comigo na minha ausência,
De mim procuro-me esgueirar.
Nos preâmbulos da consciência,
Quito a mental pendência,
Escrutinando com incongruência,
Meu ser enquanto estou a filosofar.
Discordando com anuência,
De toda rudimentar ciência,
Que paira como advertência,
Coibindo o modo de me expressar.
Exprimindo-me por conveniência,
Na semântica da não-correspondência,
Pelo ímpeto da providência,
Designo-me por linhas tortas afalar.
(Grito aturdido seco e rouco,
Se não for falado torna-nos loucos,
Na garganta há um morro,
Em que só se sobe ao versar)
Assim, há de se viver a experiência,
Existente na inconsciência,
Que por intermédio transferência,
Através de idéias vagas se põe a concatenar.
Rumo a transcendência,
Do conhecimento e de minha intransigência,
Que sobre todas as perenes aparências,
Que do saber, tento ocultar.
Mente parada é demência,
Verbo imperativo com reticência,
Há de se pedir clemência,
Pela preguiça de não declamar.
Assim, defiro com veemência,
Da passageira turbulência,
Que o ato solitário da renitência,
Que me coage a postular.
Paulo Santucci

terça-feira, 26 de maio de 2020


Solidão
Solidão é o lado oculto da lua,
Tentar conhecê-la,
É discernir o eu sob a luz da penumbra.

Mil palavras vêm à mente,
Nenhuma é exata para defini-la
Destemido e desbravado,
Aquiesço que é melhor sentí-la.

Vazio preenchido,
A metade incompleta de meu ser,
Solitário e obscurecido,
Busco formas de me entreter.

Solidão que escapa aos sentidos objetivos,
Na adstrita gleba se faz conhecer,
Porque estar só mesmo na companhia de muitos,
É um aspecto intrínseco da parcialidade do Ser

Procuro num livro um refúgio,
Uma distração para a sofreguidão,
Pois estando comigo, só e no mundo
Não posso escapar da solidão.

Ah pungente vastidão
Dessa companhia inaudita,
Dama secreta dos mistérios do coração.

Ah, mas quantos estratagemas eu me lancei,
Para buscar fugir da sua singela dor,
Repleto de si mesmo muitas vezes me tornei,
Mas nunca imune ao seu dissabor.

Viver é sinônimo de vulnerabilidade,
Não estamos isentos da padecer de nós mesmos,
Mas evitando a mentira e a maldade,
Um futuro melhor vislumbro e conheço.

Estados de momentâneos da alma,
Momentos em que quase se perde a calma,
Fugir é ir na estreita reta que leva a direção,
Do male para o qual não é remédio ou solução.

Então, sento-me e escrevo
Sabendo que o imprevisto não encontra óbice,
Também presumo que é melhor estar vivo e aflito,
Do que afortunado pela morte.



Paulo Santucci
Dias chuvosos

Dias chuvosos,
Não são nada tenebrosos,
A não ser quando relampeja ,
E ai da alma malfazeja
Que ao perder o espetáculo da natureza
Procura se afugentar!

Dias chuvosos,
São um pouco umbrosos,
Mas bendito seja,
Aquele que encontra aconchego,
No barulho das gotas do oceano do céu,
Um lugar para se acalmar.

Gotas infinitas,
Tilintam nos ouvidos,
Como doce ruídos,
Um tanto quanto frios,
Que faz a alma se pavonear.

A água bate no solo,
A alma encontra a solidão,
A névoa obscurece a visão ,
Trazendo para si o óbvio:
Que a chuva não traz o medo de se molhar.

Fulgente como o trovão
Que já sabe de antemão
Aonde aterrissar,
Somos nós quando chove.
Pois são nos dias chuvosos,
Que voltamos para dentro,
Nosso tímido olhar.

No cobertor um abraço,
No coração um leve descompasso,
Dos furiosos relâmpagos,
Que caem no âmago,
Para o espectador os vislumbrar.

Há de chover,
Para a alma se aquecer,
Dos problemas se esquecer
E ao cair do entardecer,
Dormir com uma intempestiva canção de ninar.

Paulo Santucci
Os setes pecados capitais e o lacônico terapeuta

Sofro da vida alheia,
Quando vejo nos outros, felicidade,
Logo perco minha quididade,
É um fardo, um vício, um peso que me pesa
Terapeuta: Tens Inveja.

Fui dotado de certa malícia,
Para o dinheiro tenho tino,
Para esse fim, trabalho com afinco.
Mas minha vida se resume a só isso.
E para tudo tal, exaspero da minha esperteza:
Terapeuta: Então, tens avareza.

Sofro da sensualidade,
Sou apaixonado por mim mesmo,
Tal qual Narciso, só há a mim no espelho
Dos pecados da carne faço usura,
Terapeuta: Então, sofres de Luxúria.

Sinto um amargor interno,
Bebida não alcóolica com gosto de inferno,
Sinto ódio de tudo que é terno,
E para provocar dor tenho desmesurada malícia.
Terapeuta: Então, sofres de Ira.

Sinto satisfação em ver meu umbigo cheio,
Como por um prazer que me causa até dor,
Mas para mim não há comida com gosto de dissabor,
Para as artimanhas de me saciar, tudo o mais confabula
Terapeuta: Tens, gula.

Gosto de me deitar,
E enquanto deitado, de me extasiar.
Só de ver o trabalho, sinto dor nos músculos
Mas ficando parado sinto prazer obscuro.
Não me movo, mas também sou um carro que não enguiça.
Terapeuta: Então, tens preguiça

No mundo nada além de mim importa,
E olhando o plantio de outrem, espero que não destruam minha horta.
Tenho medo de quem me ofusca,
Tenho medo de quem me assombra,
Porque sem a luz dos holofotes,
Perco-me em minhas sombras.
Para fazer mais sucesso que o próximo não maneiro na maldade...
Terapeuta: Então sofres de vaidade.

- E o que senhor recomenda?

Terapeuta:
As sete chagas pelas quais a humanidade se assola,
Os setes males que não vêm de fora,
A carne sente o que sente a alma,
O que alma sente, o ego, se afoga.
Viver intensamente e não demasiado,
Não padecer do que sente e nem dos setes pecados.

Paulo Santucci

domingo, 17 de maio de 2020


O gosto da loucura

Gosto amargo,
Quando penso, demasiado.
Nas palavras que escapam aos dentes,
Sinto o gosto com língua de serpente.
Nunca só, mas um pouco atordoado,
Quando tomo minha cerveja, relaxado.
Na busca de uma razão oculta e evidente,
Ouço a verdade quando ela mente.
O fogo de Prometheu no fígado alimenta,
A concatenação que sob a lógica se aparenta.
Na busca pela palavra exata,
Sibilo sons com gosto de bravata.
Impávido e renitente,
Penso o verbo que não se sente.
Pragmático e incansável,
Engulo o verbo insondável
Mastigando líquido insolúvel,
Bebo o néctar do augúrio.
O desejo é incessante e implacável,
Calça os meus pés, e urge de modo inexorável.
Trocando as retas pelas curvas,
Ando em frente sem sentir tontura.
Tramitando na vã razão obscura,
Aprecio o gosto da loucura.


Paulo Santucci

terça-feira, 14 de abril de 2020

Mansão dos mortos (Inferno de Dante)

Desci a mansão dos mortos,
Não como Cristo, e sim como Dante,
Traído pela perfídia dos anjos,
Ví-me na mão de horrorosos necromantes.

Pus-me então em retiro alto,
Ao longo do rio Aqueronte,
Avistei almas lânguidas e sombrias,
Sem qualquer brilho na fronte.

A frente, então, altivo,
Encontrei-me com o poeta Vírgilio,
Prometendo-me companhia e sigilo,
Levou-me pelos vales do inferno introspectivo.
“Estás vestido de carne e osso,
Mas de algo faz desuso,
Para estar vivendo esse período umbroso.”

Animado pelas palavras pouco felizes
Guie-me então pelo o que ele me disse.

A humanidade é efêmera, mas Deus é eterno.
Na companhia de Vírgilio, então,
Adentrei os círculos do Inferno.
Já sabendo de antemão,
Que o horror da morte combaliria minha razão.

Nas minhas retinas, salpicaram horrores
Ao adentrar pelo Vale das Dores,
Tomado de emoção, ví, alí, no primeiro círculo
Tilintando de medo, o próprio Abraão.
Ví outros que nenhum pecado haviam cometido,
Mas que por não terem sido agraciados pelo batismo,
Morreram sem terem conhecido Cristo.
Foi assim que então, no primeiro círculo do inferno.
Abrãao se acalmava ao ouvir as estórias de Homero. 

Adentrei outro recinto,
Cujo chefe era o próprio Minos,
Que esbravejava e enrolava sua cauda,
E a um diferente círculo, a cada dada volta ,
Uma alma ia para o abismo.

Tamanha pintura, uma gravura exata do surreal,
Minos punia os que sucumbiram ao prazer carnal,
Para ele a mais aprazível anedota,
No momento em que punia própria Cleópatra.

Agora no terceiro círculo do inferno,
O raivoso cão Cérbero,
Alimentava-se do outrora fora vivo,
Agora pútrido e deletério,
E como fera sem temor embarreirava meu caminho.
Famigerado e desmedido,
Devorava e açoitava de modo isócrono,
Aqueles que noutra vida,
Foram conhecidos como gulosos.

Prosseguindo na senda ao horrendo,
Ví o fim do homem avarento,
Diante de Plutão, deus dos mortos
Sob seu julgo, arrochava também os pródigos.
Tendo os açoites como alcunha,
Ví o fim dos que se dedicaram à Fortuna.

Navegando no rio Estige,
Emoção maior não tive,
Ao quase ser posto para fora do barco,
Por um vulto, da horda dos irascíveis.

No sexto círculo, ví o fim dos heréticos,
Com olhos famintos e corpos esqueléticos,
Vivam sob o feitiço da bruxa Eritone,
Por terem renegado Àquele que esqueceram o nome.
Horror maior é aquele que não se espera
Ao ver por cima da torre a Fúria Megera,
Com cabelos de serpentes,
Sorria um sorriso maléfico,
Ao qual, uma vez visto, não se esquece dos dentes.
Maravilhado pelo horripilante,
Ao ver o a justiça divina, em seu modo discrepante ,
Senti tremer-me os ossos,
Quando à vista da Medusa, tive que cobrir os olhos.
Pavor maior nunca me fora dado,
Senão o de morrer petrificado.

Nos preâmbulos do sétimo círculo,
Infeliz e nem um pouco fausto,
Ví brandir de fúria Minotauro,
Recriminando os que adentram aquele recinto.
Pecador pior que a concupiscência,
Neste andar pagam os que cometeram violência,
Sejam rebeldes ou obnóxios,
Pagam mais ainda,
Os que a cometeram a si mesmo, do que ao próximo.

Se há luz ou trevas na penumbra,
O cego já sabe de antemão,
Foi então que galguei ao oitavo círculo,
No reluzir das asas de Gerião.

Descí então em Malebolge,
Para ver os que usura não mostraram arrependimento,
E cometeram o pecado da fraude,
Ví à olhos nús e com descontento,
O reluzir das luzes da morte.
Tendo a cabeça voltada para as costas,
Só podem enxergar o que para trás ficou,
À essas alma penadas que agora buscam soluções sem respostas,
Remoendo o passado que pouco restou.

Também ví os apenados que sofrendo moral demência,
Praticaram o tráfico de influência,
Todavia, tão presos e desmedidos,
Pareciam esquecer o porquê de serem punidos.
Há também ladrões que do pecado não padecem,
E transformados em cinzas,
Tão logo renascem.

Cheguei ao final do Inferno,
A figura de Lúcifer, a espreitar, tão apavorante
Mas sob a sombra de uma luz mais alta,
O gigante se reduziu à um infante.

O inferno que deixei,
Alguma parte, dento de mim, jaz
Do inferno eu recuperei,
Algum conhecimento que me valha a paz.

No paradoxo da vida,
A eternidade é a morte,
Pois para a penalidade cometida,
A Providência não encontra óbice.
                                   
                                Paulo Santucci

sexta-feira, 27 de março de 2020

Persistência
Persistência,
Talvez seja abstinência dos ideias do meu ser.
Ver uma velha fotografia,
E colorir um filme em preto e branco para poder me entreter.
Persistência,
Agir com renitência,
Travar uma conversa com os mudos,
E esconder meu saber.
Escutar os murmúrios dos surdos,
E falar em alto e bom som,
Sobre o que os cegos não conseguem ver.
Persistência,
Fazer todos os dias as mesmas coisas,
E no marasmo dos meus ossos,
Consentir com algum prazer.
Almoço, café, janta
Cotidiano é uma ciência da qual sou devoto
E mesmo assim não o consigo entender.
Dormir, acordar, levantar
Pelos becos da rua se esgueirar
Pela multidão de pessoas transpassar,
Tudo na vã tentativa de tentar me esconder.
Crente na causa final de todas as coisas,
E mesmo assim buscar nas brechas do acaso,
Um augúrio do que poderá vir a acontecer.
Persistência,
Lânguida alma e sua luminescência
Que faz do trabalho e do descanso,
Momentos para tudo transparecer.
Persistência,
Ato nobre da resistência,
Contra todo o aspecto vil do mundo,
Ao qual não é possível aquiescer.
Paulo Santucci

sexta-feira, 20 de março de 2020

Rindo com os loucos
Toda dia a luta se entrava,
No raiar das trevas meu ego se engaja,
Nas adstritas glebas do conhecimento, eu espero
Vislumbrar o ócio do tempo em seu pretérito.
Sabedoria talvez seja repetir a si mesmo,
Tudo aquilo tragado pelo vil esquecimento,
Que faz das memórias, águas passadas jorradas a esmo
Endurecidas como lágrimas, tão duras como cimento.
Repaginados os atos, de bravura e loucura,
Na parábola do semeador, colho a semeadura.
Nunca disseram-me que a vida é mole, tão pouco tão dura
Dar-me-ão a posse de mim mesmo, assim que me abster da investidura.
As paredes do hospício enclausuram os doentes,
As paredes do confessionário confessam as palavras dos penitentes,
O orador e o curador, em modos opostos se assemelham
Ao deixar seus espectadores mais ou menos contentes.
Nos labirintos de asfalto
Mundos opostos se atraem,
Transeuntes, andando em círculos, cruzam os seu percalços,
Levitando não na água, mas na margem.
E fico eu na janela,
Vendo a vida passar tal qual uma novela,
E para saborear o gosto acre do meu tempo,
Dedico-me á:
Entender os pormenores do pensamento
Amiudar as intempéries do sentimento
Engajar-me no obscuro discernimento
Para da sã loucura regozijar-me com meu entretenimento.

Paulo Santucci

sexta-feira, 6 de março de 2020

Fogo Fátuo
Luzes divinas irrompem no cemitério,
Transformam o mórbido em belo
Ato natural e singelo,
Da transubstanciação do meio vivo para o deletério.
Outrora vivo, agora morto,
Os ratos roem das almas o corpo,
Não sendo algo vívido, senão outro,
Vermes da carne sem vida, tampouco.
Estágio de morte,
Ato final da vida,
Mistérios esplêndidos calados
No transcorrer da ida.
Para noutro mundo viver,
Os da carne livrados,
Que caem num abismo,
Tão livres quanto despreparados.
Covas enchidas das lágrimas do pranto,
Vozes suprimidas nas paredes do caixão
Espíritos que se entregaram ao deus Tânatos,
Cumprem o destino escrito nas linhas de suas mãos.
Almas pairam sobre as almas
Gravitando na órbita lunar
Dançam como vis dançarinas
Sob a égide do funesto luar
O fenômeno é claro, reluzente
Claro demais até para os clarividentes
Pois homens sãos ou doentes
Na metáfora da morte,
São todos renitentes.
Para alguns magia,
Para outros assombração
A luz áurea sobre as covas,
Clarão da morte nada peremptório
Ilumina as lápides e os óbitos
Como a arte final da morte em sua ação
Na simplicidade da carne em sua putrefação.
Paulo Santucci

domingo, 23 de fevereiro de 2020

Paralelismo psicofísico
Eu sou o que sou,
Sou também onde estou,
E quando saio, sou o que ficou.
Nas lembranças alheias,
Tudo aquilo que restou.
Não sou minhas pernas,
Mas preciso delas para andar.
Não sou meus braços,
Mas sem eles iria me afogar.
Não sou meu cérebro,
Mas preciso dele para duvidar.
Sou parte de meu escrutínio,
E sem silogismo, não raciocínio.
Não sou tudo o que eu penso.
Mas tudo que penso, sinto.
Sou apenas um refugiado,
No covil mental em forma de labirinto.
Porque neste paralelismo psicofísico,
Sou corpo mais mente, advindo.
Um entre alguns,
Só e somente só,
Mas nunca nenhum.
Dividido entre a carne e o pensamento,
Tragando palavras no relento,
Faço da dádiva do verbo o meu ensinamento
Para buscar neste louco paralelismo,
O meu insano discernimento.
Paulo Santucci

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Letras

Preciso de um trago,
Preciso de letras,
Ou qualquer idéia vaga,
Com gosto de certeza.

Preciso de gente,
Encontrar-me ei na balbúrdia
Só assim esquecerei,
Das palavras más, tolas e estapafúrdias .

Quero escrever demasiadamente,
Tornar-me escritor,
Mas não quero acabar:
Como Oswald Bereford.

O relógio, novo advento do tempo:
Atrasa os desafortunados pensadores barulhentos.
Quero escrever com árvores ao relento,
E doar os meus versos,
Para os engenhos de vento.

Não quero água
Mas preciso de sede,
Ou qualquer instinto,
Que não me prenda na virtual rede.

Ora sou filósofo, ora sou ator
Descobrindo cenas,
Entre o júbilo e a dor.

Não preciso de dinheiro,
Não preciso de mulheres,
Apenas que se afastem de mim,
As pessoas que mal me querem.

Preciso de frases, versos e letras
Que componham um quadro,
Pintados por cegos.
E peço aos artistas do cemitério:
Venham me velar,
Enquanto deliro certezas.

Letras, codificadas em frases,
Que sibilam no cérebro
Formam as virtudes,
Aquelas que estão,
Entre a fraqueza e a grandeza.

Todavia, não se encontram mais nas prateleiras.

                                                     Paulo Santucci