domingo, 22 de dezembro de 2019

O Hospital

No hospital,
O Anjos da Noite vêm de branco,
Escutar bem de perto, com o estetoscópio ,
O grunhir do pranto.

Doutores da dor, preconizam a morte:
E enfermeiros velam os doentes,
À deriva de qualquer sorte.

No mesmo lugar donde chega-se ao mundo
Pode-se ver de camarote, o fim de tudo.

O sangue vermelho jorra,
Nas veias de um corpo desnudo.
O coração desfolegado bate,
Cansado e imundo.

Lá,
Tanto o homem novo quanto o velho,
São mortais e deletérios,
Liquefazem-se como água,
Transformam-se em ossos etéreos.

No corredor,
Um barulho de máquina e de gemidos,
Sussurram como uma boca cálida,
Bem ao pé do ouvido.

Esperando, no quarto tedioso,
Paciente da enfermidade
Vislumbrando o horroroso
Para conhecer minha quididade.
(Anos-luz se passam...)

O hospital,
É um lugar transitório
Entre o vivo e o peremptório.
De nenhum modo satisfatório
Contudo, um lugar meio-termo entre a vida e a morte
Não seria o próprio purgatório?

quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Tolo sem ouro
Perscrutando horizontes longínquos,
Buscando brumas bem de perto do fim do abismo.
Ele devaneia e não pensa consigo,
E busca na mão que o derruba um amparo amigo
Sozinho, gravita no universo de seu umbigo.
Suas questões paradoxais são falácias que imprimem a face de seu histo,

A cada esquina da rua, acende um cigarro e traga seu suspiro,
Busca em milhares de palavras uma desculpa para o seu ceticismo
E vai ao terapeuta para ouvir a si mesmo, com devido escrutínio,
Que sua anedonia está lhe afetando o raciocínio
Mas a palavra não cala, irrompe no córtex cerebral
Emerge em forma de atos falhos, cismas e comportamento animal

Com Cronos e Tânatos, ele corre contra o tempo
Disputando com um parceiro desleal,
Seu algoz ego ferido, àquele que atinou contra seu maior ideal:
Viver uma vida feliz, como todos os outros vivem
E como um tolo sem ouro ele resfolega e sobrevive.
Mais alguns dias...
Pois na vida só a morte é que persiste.
Paulo Santucci
A lógica do irracional
Deparei-me com uma questão colossal,
O que subjaz à alma humana neste mundo infernal?
Nos dias de hoje, anjos choram e demônios cantam,
E o homem fleumático procura conhecer a si mesmo, no entanto.
O gozo da vida é a busca final para muitos,
Que, cegos da mente, vâo ao encontro de seus próprios
augúrios.
Perfilam-se em linhas horizontais na fila dos bancos,
Para assinar o contra-cheque de seus próprios desencantos.
O homem racional esmorece com seus próprios anseios,
E ao dormir à noite, sonha com seus próprios devaneios.
A luta é contínua, a marcha é rítmica,
E o homem continua em frente com sua bronquite, asma e arritmia cardíaca.
Não há tempo para o Belo, nem para o Sublime,
E o espelho da contradição é a televisão, que a noite, ele assiste.
Trocaram os valores, não há mais xis sobre ípsilon,
A álgebra da vida mundana é feita para formular em sentenças, a penúria do impossível.
O sonho mudou: ganhou novos limites,
Agora serve para aceitar tudo aquilo que a razão não admite.
Pela manhã, um hiato para pensar entre a xícara de café e o cotidiano papel de jornal
A bebida desce com gosto de pressa, e também de confusão
E durante o dia, o homem inconscientemente responde a si mesmo, com tímida satisfação,
Mil perguntas que não calam (e que não ouve); certamente um dia, à certa idade, virão.
E saciando a si mesmo, o homem segue sem perceber a óbvia contradição,
E a pergunta que não cala, deveras abissal:
Para viver neste mundo, seria então necessário
Abrir a mão e deixar viver o pássaro
Ou então escrutinar (com afinco),
A lógica do irracional?

Paulo Santucci

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Homem da rua
Ali jaz um corpo vivo
Bem no meio da calçada. Entre os carros e os transeuntes
Suas raízes fincam o solo
O chão é o seu lugar, lugar qualquer e lugar nenhum
Ali está um homem aflito
Bem no meio da praça, ao figurar o seu lugar entre os que passam
Não pertence a ninguém. Suas raízes morais o prendem no subterrâneo
O chão é o seu dormitório, e tudo o mais na sua vida: transitório
O homem da rua envelhece sob o olhar de muitos
Alguns lhe dão atenção, outros, augúrios
“O que fez para estar nesta condição. Certamente, merece”
E é nesses momentos que a Cristandade padece.
O homem da rua é pior visto que os ratos.
(Mesmo esses ocupam espaço com o medo que causam)
O homem da rua é pior visto que as baratas
(Mesmo essas causam alvoroço nas moças que passam)
E ele continua ali. Implorando, mendigando, se arrastando
Sua barba cresce com o tempo: só faz aumentar a sua sombra
Sombra que o serve de alento e esconderijo,
Está sempre escondido, mesmo quando por muitos, visto.
Às vezes tem por companhia uma garrafa
Ás vezes tem por regozijo um prato de comida
É o maior espectador da vida social,
Contudo, o personagem mais subestimado da vida moral.
E vida que segue.
Quem liga para o que acontece,
Com um homem que certamente tem o que contar sobre a vida
E que reside no labirinto formado por ruas e avenidas.

terça-feira, 22 de outubro de 2019

Inspiração
Outro dia, o Diabo me bateu à porta:
“Venderias sua alma por um pouco de inspiração”
Disse-lhe:
“Vade reto sem olhar para trás! Mesmo o que eu não tenho, já sei de antemão.”
Insistentemente, ele perscrutou-me
“Julga por palavras tortas conhecer seu coração?”
Retruquei: Vê se não me incomoda! É acima do meu umbigo que mora a minha razão!”
Passaram três dias sem ninguém bater à minha porta...
Outro dia, apareceu um pastor à minha porta:
“Tem dez minutos para conhecer a palavra do Senhor”
À moda de Sócrates, respondi-lhe:
E esses dez minutos fariam aumentar o meu dissabor?
Este nunca mais me apareceu à porta.
Passou-se mais um dia e veio um vendedor:
“Já sabia que há falta de santos no paraiso. Não gostaria de comprar a sua entrada?”
Respondi-lhe: Vê se não me esgota a paciência: da luta contra os demônios eu ganhei e foi de virada.
Este nunca mais me apareceu à porta.
Passou-se uma semana e desta vez um deputado:
“Vamos mudar o país, se eu conseguir o seu voto.”
Vossa excelência, me perdoe. Da sua ciência não sou devoto.
Passaram-se três dias e apareceu um bêbado à minha porta:
“Senhor, desculpe lhe incomodar, mas eu preciso é de cachaça”
Eu respondi-lhe:
“Meu senhor, você angariou meu coração. Diga-me quanto precisa para um mês inteiro?”
“Trinta reais, senhor.”
Tudo bem, lhe darei sessenta, volte daqui a trinta dias e diga-me o que aprendeu.
Trinta dias depois o bêbado na minha porta bateu.
Perguntei-lhe então, o que aprendeu?
“Bebo para suporta a amargura da vida,
Fico feliz quando vejo a amargura descida,
Cambaleio e caio para lembrar que há sempre uma subida
Canto e abraço o acaso de mãos estendias.”
Bravo, disse-lhe.
O bêbado então perguntou:
“Meu senhor, para que fez isso?”
Analisei a sua lógica,
De todos que bateram a minha porta,
Só vi em você o sinal de nenhuma contradição.
Mais que isso, ofereceu-me algo maior que a razão.
Senão o estímulo para continuar a pensar, talvez a própria Inspiração.

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

A musa
Os instintos urgem,
A boca cala.,
A mente aquiesce.
Era dia. Apagou-se a tarde.
Agora anoitece.
A noite é uma devassa,
De saia curta.
E eu me ponho a encontrá-la,
Em qualquer rua escura.
A noite é uma Musa,
Que inspira os passantes.
Que pelo caminho torto da vida,
Beijam suas amantes.
O luar é seu holofote,
Sombrio, túrgido.
O convite é seu decote,
Para um beijo obscuro.
A musa inspira, a musa enlouquece.
Inebria os poetas com seus versos em vestes.
E enquanto tenta se recuperar o senso de decência,
A musa os enlouquece com pensamentos de concupiscência
.
Seu andar capta olhares,
Imagem são gravadas nas retinas hipnotizadas,
De homens que de covarde não tentam conquistá-la,
Mas se contentam em vê-la de mini-saia.
Ela dança, gira, rodopia
É o carnaval de uma pessoa só na avenida
A musa inspira, mas também enlouquece,
(Aqueles que tentam vê-la por debaixo de suas vestes)
A musa inspira, e o homem suspira
Sai derrotado no combate das suas paixões
Solitário em casa, não pensa noutra coisa senão na próxima sexta-feira
Pensa somente em vencer o medo e as próprias tentações.
A musa tem sua razão de ser,
Seu corpo composto por versos, da sensualidade fez seu poder.
E o homem que a queria ter em seus braços
Da bebida amarga guarda o gosto embriagado,
Todavia, não se admite derrotado.
E a cada sexta-feira
Põe-se então numa nova empreitada
De rever a sua musa, tão almejada
(Amada, odiada e cobiçada)
Fazendo inveja a própria Vênus
Ao desfilar na rua de mina-saia.
Paulo Santucci

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Cotidiano
Cotidiano é o inferno urbano,
Estamos presos á uma bola de ferro chamado vida social.
Dormimos no paraiso onírico e acordamos pedindo que nos livrem de todo o mal.
O ritmo dos sonhos é uma valsa dançada como uma bela mulher,
O ritmo da vigília é uma dança com o diabo personificado numa pessoa qualquer.
Perambulamos por labirintos, perscrutando a saída do abismo,
Buscando uma fuga ao eu, para não nos sentirmos sozinhos.
A mente é incansável, a carne é fraca.
Andar no caminho certo, para não tropeçar na vida depravada!
Quanto tempo temos de vida, quanto tempo temos de morte?
Utlizemos então nossos métodos racionais, para não ficarmos à deriva de qualquer sorte.
Deveríamos então, andar de mãos dadas com a loucura e a sanidade,
E buscar fazer o bem, e evitar toda a maldade?
Melhor recorrer aos santos, da paciência eles se fizeram mistereres.
Talvez seja melhor viver a vida corrida, e evitar ser triste.
O relógio não pára nem anda para trás,
Melhor andar no ombro dos anjos, e para longe o Satanás!
E se a solução não for o remédio, e a busca não for a cura
Que Deus se apiede de nós, mas não nos deixa sucumbir na loucura!
O cotidiano é implacável. Algoz, feroz, inextrincável.
Viver já é uma proeza, algo sublime e admirável.
Lidar com o Ser, buscar as notas certas da harmonia,
Criar uma canção nova, mesmo que seja de melancolia.
Viver é viver, não tem meio termo.
Procurar-se-á o saber para não padecer enfermo.
E assim se passam os dias, e voam as páginas dos calendários,
E qual juiz julgaria o que fizemos desse tempo?
Nesse caso ainda somos reús primários.
Paulo Santucci

terça-feira, 24 de setembro de 2019


A medida exata do exagero

Dizem que aprendemos com os erros
Até mais do que com os acertos

Dizem que a ignorância é um breu
Até o momento em que a sabedoria ainda não veio

Fugitiva mente que anda pelos becos
(Becos da razão)
Espreitando e escrutinando a  lógica dos bêbados
(Bêbados de vida)

Atentar-se-á viver livre dos pesadelos
Dormindo  acordado na grande noite do tempo
(Tempo restante daquilo que nunca acaba)

Pôr-se, então, à procura de um novo espelho
Que retrate o homem anacrônico de acordo com o seu exagero

Pois seria mesmo a razão uma medida exata
Para viver a vida livre do desespero?

segunda-feira, 9 de setembro de 2019


Retidão

Faz tempo que não há nada de novo no céu
A escuridão pegou emprestado o horizonte para si
E a lua, tímida, trepidante...
Agora oscila.
Mas ainda aparece para brilhar
Assim, à noite, quando caminho
Espero ouvir do vento meus murmúrios escondidos,
A noite alisa os meus cabelos com o seu soprar
E quando expiro, sopro de volta meus silenciosos tormentos.
As marés enraivecidas do mar de Copacabana,
Tentam tirar minha atenção com o estalar de suas ondas                         
Oh, afasta-se de mim Oceano
Pois hoje quero permanecer só.
Na companhia de minha retidão.
                                                         Paulo Santucci

O vento

Cá onde estou, a paisagem de que também sou parte
As janelas abertas. E vejo a montanha sob a luz sombria de uma lua incandescente
Vejo as curvas de pedra, que tornam aprazível a miragem do infinito
Mais próximo de mim os galhos de jacarandá trepidam com o vento rutilante
Sinto-me parte de tudo aquilo, e entendo o sentido da contemplação.
Medito com meus livros. Mas o vento não cessa de soprar. Mesmo quanto se extingue
E de repente sinto o vento de memórias pesadas.
Sinto o vento dos que já se foram.
Sinto o vento daqueles que  fazia tempo que eu não pensava, mas ainda continuam aqui, ali e noutro lugar do universo.
Percebo então que o vento carrega tudo o que toca e para ele nossas almas são flores levadas para brotar nas almas de todos que nos foram próximos.


A Dor
Parcas cargas d'água
De um rio que secou
Dentro da garganta não há lágrimas
Para um sentimento que o peito arrebatou
Dizer-se á que o choro preenche o tempo
Mas o que fazer depois que já se chorou?
Implora-se e pede ao vento
Pra trazer o que não se buscou.
Contetar-se à com o contentamento
A Distração para abstrair o tempo
Ó Sombra que me sevre de alento
Desce sobre mim,
Refúgio meu do isolamento.
Pois ainda paira
Entre a felicidade e mim,
O sofrimento.
                                                                      Paulo Santucci

domingo, 8 de setembro de 2019

DESCARTES E FREUD
Descartes: Penso, logo existo.
Freud: Penso porque sinto.
Descartes: Meu saber é claro e preciso
Freud: Meu saber é obscuro e indeciso
Descartes: Raciocínio, sim. E dúvidas... não admito
Freud: São as dúvidas que moldam o saber que é meu edifício.
Descartes: Dos mistérios ocultos, vislumbrou tornar-se mister e erudito
Freud: Das palavras procurei entender o saber não-dito
Descartes: Das baixezas do ser divagou sobre conhecimento reles e perfídio
Freud: Das profundezas da mente, tornei coerente o que era incompreendido.
Descartes: Aprofundei-me sobre o estudo da mente e descobrí o verdadeiro mecanicismo
Freud: Curei centenas de doentes e descobri que o sofrimento não era tão doentio.
Descartes: Tens angústia porque procurou entender o incognoscível
Freud: És indiferente com o lado oculto do teu ser, que é sublime e verossímel
Descartes: É loucura tentar entender o que jaz sob o jugo do indiscernível
Freud: Não é sabedoria somente entender o que parece lógico e perfectível.
Descartes: Fui notável em minha época e inaugurei o racionalismo
Freud: E não foi a toa que ao morrer teve a cabeça separada do resto do seu organismo!
Descartes: Não foi a pneumonia que me matou, e sim, meus opositores. Maldito empirismo!
Freud: Viu, não somos tão diferentes assim. Ambos procuramos o que julgavam estar... perdido.
Descartes; Para finalizar esta discussão, que tal bebermos um absinto?

Paulo Santucci
Tempo Mordaz

Aniquilou-me cada segundo,
De recém-nascido, cresci-me moribundo
Dando voltas pelo mundo,
À espera de um lugar
Viajei pelo obscuro,
Encontrei luz na sombra de um muro,
E lá, então, pus-me a pensar
Se o Presente é um momento passado do Futuro
Se o gozo da vida é tal qual o gozo do luto
Se a esperança é a lástima do homem irresoluto
Em qual caminho, então, deverei me esperar?
Tempo ansioso,
Faz girar os ponteiros de modo desgostoso
Enruga a pele, enfraquece os ossos
Assusta a vida, açoita os mortos
E traz a fadiga ao trabalho por demais ocioso.
Fico então, á espreita, dos minutos
Que se liquefazem, no relógio obtuso
As horas são traiçoeiras, os minutos são agudos
E o tempo passa ainda mais rápido, na hora de descansar.
Paulo Santucci

quinta-feira, 6 de junho de 2019

Fonte
Sinto dor, só não sei aonde
Outrora habitava aqui um coração...
Agora palpita na fronte.
Sinto-me perdido, desorientado.
Conquanto sigo os meus passos...
Não perco de vista o horizonte.
Sinto-me cansado. Peito transpassado
Se a solidão é uma montanha a se suibr...
Dou voltas no pico do monte.
Estou fatigado. Quase metamorfoseado
Corpo de peixe. Espírito de cobra
Ó cobrador do tempo... Troco cédulas por horas
E enquanto o Hoje não termina,
Regozijo-me com o dia de Ontem.
Procuro onde a vista não alcança.
Miragens de uma mente inebriada
Pelo licor seco que não desce pela garganta.
Se o deserto é o concreto enquanto pensado
Creio (do fim) não estar muito longe
Perscrutando a razão do meu ser...
Indagações surgem como o modo que me sinto.
Não mais inteligente; nem um pouco idiota
Se a sabedoria é uma água que não sacia a sede
Estou a procura de outra fonte.

sábado, 25 de maio de 2019

Escrever
Não queria escrever, mas só fazer um rabisco
Pois dizem que a mente que não cria é uma vivaz pantomima
Eu queria escrever mas me dizem: “deixa disso!”
Mas devoto que sou, recuso-me à apostasia
Não sei se quero escrever, falar sobre isso e aquilo
Mas ficar calado também produz ruídos.
Pensar sobre o que escrever, dizer o não-escrito
Pois muitas vezes o que eu quero já foi discorrido
Escolher sobre o que versar, no mais das vezes já está implícito
Calar-se, não!
A mente muda é uma algazarra de sonidos.
Letras que me fogem à vista, ecoam nos ouvidos
Saber etrusco? Não o tenho!
Então escrevo recorrendo somente aos sentidos!
Do covil da alma, eis que brota uma semente
Girassol ao fim do labirinto.
Resplandece sobre o que está escrito
Se não escrevesse talvez me tornasse:
Ignorante sobre como eu me sinto.
Paulo Santucci

terça-feira, 14 de maio de 2019

Vazio Esquecido

Vazio esquecido,
que trago comigo,
é tal qual a um livro
que não se pode folhear.

Vã filosofia,
(mas beira à teimosia!)
que para àquilo o que há além do umbigo
insiste em imaginar.

Incessante tautologia,
(incansável, quebradiça)
...que busco em palavras vazias
No ato de me expressar.

Mas, todavia,
É na busca pelo sentido
(Trabalho árduo, desprovido!)
Mas que aguça o ouvido,
Que no meio de tantas mentiras,
Alguma verdade tenta escutar.

Ó mundo sombrio,
Peremptório,Sublime, maldito!
Que relega ao seu habitante
O trabalho (tenaz!)
De viver para pensar.

Ó mundo sombrio,
(feérico, sublime, maldito)
Em que para além do Vazio,
Existe um Paraíso,


Impossível de se alcançar.

domingo, 5 de maio de 2019

Admoestação

Eu sou subentendido
o que eu falo é implícito para a cabeça
e explícito para o coração.

Na minha boca não cabe um siso
por causa de tudo aquilo que eu repito
e que já sei de antemão.

Todavia, não ando em círculos
mas também não ando reto
no caminho que me leva a razão.

No passado eu procuro,
tudo aquilo que foi perdido
e que no presente não encontro,
talvez por falta de coesão.

Todavia carrego comigo,
e, conquanto, trago escrito
na palma de minha mão.

Talvez sejam os versos não-escritos
que sibilam na língua mal dita,
do pensador arrependido
por não ter ouvido sua própria admoestação.

domingo, 10 de março de 2019

Fausto e o Abismo
Os ventos furiosos, as cortinas sopravam
Na mesa dois candelabros,
As chamas das velas trepidantes, bruxuleavam .
A última página do livro negro fora lida,
Livro que agora se encontrava fechado.
Porém, dantes, a invocação fora feita:
“Quero conhecer tudo, já não basta a mim mesmo
Quero ser o homem mais sábio do mundo
Cujo o qual nenhum se equipara em conhecimento.”
Chamas luminosas pela penumbra se irradiam,
Estrondo surdo irrompe no ar,
Surge no cômodo uma presença fúnebre e desconhecida.
Com seu odor acre e olhos vermelhos que brilham sombrios,
Olhos que olham sem serem vistos
Um longo sobretudo toca ao chão, como se brotasse das trevas
O leitor fascinado agora reluz, em sua testa
A luz que emana da presença maldita.
Mefistófeles:
Leste o livro negro com desejo e afinco,
Não esperava minha presença, como consta em seu ser, estremecido.
Os mistérios ocultos desejou conhecer.
Mefistófeles me chamo, e todos mistérios o farei entrever.
Se prometerdes a mim, que nada, a ninguém, jamais contará.
Seja sobre este encontro, sob a égide do funesto luar,
Seja sobre o que lhe estou prestes a lhe revelar.
Fausto:
Meus lábios são como um túmulo,
E cerrados como um caixão.
Zelam o segredo como a um sagrado moribundo,
E como mostras de que não titubeio, basta ouvir meu coração.
Minha alma obstinada, ávida e também esmorecida
Pelos tantos anos que busco encontrar
A resposta para todos os mistérios,
Todos àqueles que me fazem ansiar.
Respostas para todas as perguntas, mesmo aquelas nunca antes perguntadas,
Ou mesmo àquelas que já foram esquecidas.
O fim de todas as dúvidas, o conhecimento Absoluto,
Sobre o Passado e o Futuro,
Pelo qual, eu, ávido e irresoluto,
Almejo tanto encontrar.
Já ouvidas suas admoestações,
Sabes de antemão que violar o pacto não é meu intento
Sentirás pela minha alma que injuriar a minha promessa não é o que temo.
Mefistófeles:
Então, é verdade, que deseja saber mais sobre as trevas e a luz
Do que qualquer outro humano já intentou?
Aguentaria o fardo de saber todas as verdades
De que a humanidade preguiçosa, que por não procurar, nunca encontrou?
Fausto:
Pois é esta humanidade que me cansa,
E sim, quero galgar um degrau que nenhum homem jamais galgou.
Pois ainda estou preso nesta engenharia de vísceras,
Receptáculo da humanidade, embrião do sofrimento
Quero libertar-me do tédio e da fadiga,
Quero viver do intelecto e, então, enternecer-me com meu próprio entretenimento.
Mefistófeles:
Alma soberba,
Vê se mede bem correto o teu exagero
Antes de desejar ir mais além,
Pois mesmo tua carne é fraca,
Para as idéias que tens!
Fausto:
Meu desejo é sincero
Minhas virtudes fazem jus,
Irresoluto e inexorável, sou.
E repito:
Só me interessa conquistar aquilo que eternamente me seduz.
Manter acesa a chama que me ilumina o intelecto,
Viver tão somente daquilo que a alma produz
Livrar-me deste mundo humano, imperfeito e abjeto
Do qual só carrego cicatrizes em minhas memórias,
Ofensas e despeito,
Mentiras e tragédias
Mas não se engane comigo, certamente não sou homem mesquinho
O passado eu regenero,
Através das proezas que se estenderão,
No presente instante do futuro:
As proezas serão os rastros em meu caminho!
Mas para os momentos, aqueles em que a memória padece,
E não encontra em associações algo a mais que valha ser pensado
Ou nos momentos em que a alma enfraquece,
Não encontrando algo o mais que valha ser sentido,
Que seja-me permitido vislumbrar o futuro, do passado,
E entreter-me , com regozijo
Com os frutos semeados, que um dia serão colhidos.
Também permita-me contar com o acaso,
Aposta segura do jogador adicto!
Pois se o azar já me fora dado,
Que a sorte então me seja predita!
Mefistófeles:
Suas palavras sibilam em sua língua,
Seus olhos dimanantes traduzem confiança
Mas para o que almejas é apenas um infante
Que recria o mundo a partir de suas mais tenras lembranças!
A partir do mundo sonhado, pensas conhecer o que teu intelecto não alcança
E julgando ser a realidade, tão empobrecida e inesperada
A concebe como um bruto diamante,
Que não pode ser lapidado,
Por um ser... ,
Reles ignorante.
Fausto:
Meu pedido é ousado,
Certamente não padeço de imaginação pusilânime
Meu desejo é apenas trabalhar demasiado
Sem sofrer da fadiga, dos nervos ou do sono infame!
Mefistófeles:
Seu pedido então está aceito
Seu sonho será realizado
Terá todo possível conhecimento
E para dentro de um mundo desconhecido será levado.
Mas fique admoestado,
Que por levar em frente essa vã filosofia
Acabará nas mais intensa anedonia
Julgaste-te maior e melhor por conta da proeza de seu intelecto
Tua razão gerou sonhos insípidos que toma por sublimes
Agora quere perscrutar no mesmo erro para alcançar na solidão
A realização de teus devaneios oníricos.
Mas diga-me, então, de uma vez?
Se já provara o amor em vida, porque insistir nesta insensatez?
De se tornar uma estrela ascendente num céu sombrio?
Fausto:
Sou maduro da vida. Sou como a cicatriz que torna cronológico o tempo
Deixei os meus rastros onde viví, mas ainda no que escreví
Sou corajoso o bastante para assumir meus erros e devaneios.
Contudo amor maior não encontrei,
Como aquele que tenho pelo conhecimento
Pelas páginas marcadas que norteiam no universo e no tempo
Os percalços dos pensadores iluminados e solitários
Cuja vida é:
Transformar letras em estrelas,
Versos em constelações,
Contemplar a solidão no precipício do abismo,
Sabendo que o infinito não termina aonde perde-se a visão.
Quero deixar meus rastos para os pensadores perdidos,
E dizer-lhes:
Há um caminho certo para os que comungam desse tipo de solidão.
Narrador:
Irrompe um clarão no céu
Uma pirâmide dourada surge
Milhões de estantes abotoadas livros
Todos os livros do mundo.
A insaciedade de Fausto urge
Fausto moribundo,
Se vê diante de todos os livros do mundo.
Palavras saltam à vista, pululam em sua mente
Tenta tocá-las, em vão
As palavras adentram um recipiente
Que outrora chamara de coração.
Toda a ação dura segundos infinitos,
E Fausto agora se vê munido
De todo o conhecimento, pelo homem, já produzido.
A pirâmide se apaga,
Mas Fausto ainda não está sozinho.
Mefistófeles:
Lestes todos os livros do mundo
Minha promessa a qual cumprida
Decidirá o que fazer da sua vida
Agora que volto para meu lar, no submundo.
Teu desejo fora realizado,
Contudo, para assim sentir-se, será um fardo
Ao qual carregará como escudo.
Ditas minhas últimas palavras, faço desta minha última visita
Cuidado com o que pedes,
Pois pode transformar-se numa coisa maldita.
Fausto:
Ao abismo retirei-me
Com todos os livros já produzidos
Arrogante me tornei,
E também sábio e impreciso,
Galguei o
s degraus do abismo,
Com todos os livros já produzidos
Da sobrecarga me livrei,
De mais saber não necessito,
Pois tudo agora sei.
Sozinho me tornei, gravitando em universo solipsista
Eis que então me admirei, ao ouvir sozinho minha voz
Agora se fazia eco, eco se ouvia:
Noutra dimensão ainda não preenchida.
Mestre em solidão me tornei,
Ignorante do meu destino,
Busquei alguém ao lado para contar do que sei,
Encontrei-me refletido, uma imagem distorcida
Espelho de sombras,
Só por mim pode ser visto
Repleto de mim e vazio,
Atravessei pelas mais profundas emoções
Não era Moisés, Era Dante
Abrindo o mar das dores que não afogam,
Divido entre o intelecto e as tão chamadas contradições
Que circulam pelo peito, enfraquecem os tendões.
Arrebatou-me o coração, chorei lágrimas de tormenta
E então compreendí, que a curiosidade é uma porta aberta
Aos caminhos da divagação, que conquanto for explicada
Só afasta das trevas as perguntas ainda não concebidas,
Pelo abismo chamado imaginação.
Paulo Santucci
Poema inspirado pelo livro "O Fausto",, de Goethe.