Fausto e o Abismo
Os ventos furiosos, as cortinas sopravam
Na mesa dois candelabros,
As chamas das velas trepidantes, bruxuleavam .
A última página do livro negro fora lida,
Livro que agora se encontrava fechado.
Porém, dantes, a invocação fora feita:
“Quero conhecer tudo, já não basta a mim mesmo
Quero ser o homem mais sábio do mundo
Cujo o qual nenhum se equipara em conhecimento.”
Chamas luminosas pela penumbra se irradiam,
Estrondo surdo irrompe no ar,
Surge no cômodo uma presença fúnebre e desconhecida.
Com seu odor acre e olhos vermelhos que brilham sombrios,
Olhos que olham sem serem vistos
Um longo sobretudo toca ao chão, como se brotasse das trevas
O leitor fascinado agora reluz, em sua testa
A luz que emana da presença maldita.
Mefistófeles:
Leste o livro negro com desejo e afinco,
Não esperava minha presença, como consta em seu ser, estremecido.
Os mistérios ocultos desejou conhecer.
Mefistófeles me chamo, e todos mistérios o farei entrever.
Se prometerdes a mim, que nada, a ninguém, jamais contará.
Seja sobre este encontro, sob a égide do funesto luar,
Seja sobre o que lhe estou prestes a lhe revelar.
Fausto:
Meus lábios são como um túmulo,
E cerrados como um caixão.
Zelam o segredo como a um sagrado moribundo,
E como mostras de que não titubeio, basta ouvir meu coração.
Minha alma obstinada, ávida e também esmorecida
Pelos tantos anos que busco encontrar
A resposta para todos os mistérios,
Todos àqueles que me fazem ansiar.
Respostas para todas as perguntas, mesmo aquelas nunca antes perguntadas,
Ou mesmo àquelas que já foram esquecidas.
O fim de todas as dúvidas, o conhecimento Absoluto,
Sobre o Passado e o Futuro,
Pelo qual, eu, ávido e irresoluto,
Almejo tanto encontrar.
Já ouvidas suas admoestações,
Sabes de antemão que violar o pacto não é meu intento
Sentirás pela minha alma que injuriar a minha promessa não é o que temo.
Mefistófeles:
Então, é verdade, que deseja saber mais sobre as trevas e a luz
Do que qualquer outro humano já intentou?
Aguentaria o fardo de saber todas as verdades
De que a humanidade preguiçosa, que por não procurar, nunca encontrou?
Fausto:
Pois é esta humanidade que me cansa,
E sim, quero galgar um degrau que nenhum homem jamais galgou.
Pois ainda estou preso nesta engenharia de vísceras,
Receptáculo da humanidade, embrião do sofrimento
Quero libertar-me do tédio e da fadiga,
Quero viver do intelecto e, então, enternecer-me com meu próprio entretenimento.
Mefistófeles:
Alma soberba,
Vê se mede bem correto o teu exagero
Antes de desejar ir mais além,
Pois mesmo tua carne é fraca,
Para as idéias que tens!
Fausto:
Meu desejo é sincero
Minhas virtudes fazem jus,
Irresoluto e inexorável, sou.
E repito:
Só me interessa conquistar aquilo que eternamente me seduz.
Manter acesa a chama que me ilumina o intelecto,
Viver tão somente daquilo que a alma produz
Livrar-me deste mundo humano, imperfeito e abjeto
Do qual só carrego cicatrizes em minhas memórias,
Ofensas e despeito,
Mentiras e tragédias
Mas não se engane comigo, certamente não sou homem mesquinho
O passado eu regenero,
Através das proezas que se estenderão,
No presente instante do futuro:
As proezas serão os rastros em meu caminho!
Mas para os momentos, aqueles em que a memória padece,
E não encontra em associações algo a mais que valha ser pensado
Ou nos momentos em que a alma enfraquece,
Não encontrando algo o mais que valha ser sentido,
Que seja-me permitido vislumbrar o futuro, do passado,
E entreter-me , com regozijo
Com os frutos semeados, que um dia serão colhidos.
Também permita-me contar com o acaso,
Aposta segura do jogador adicto!
Pois se o azar já me fora dado,
Que a sorte então me seja predita!
Mefistófeles:
Suas palavras sibilam em sua língua,
Seus olhos dimanantes traduzem confiança
Mas para o que almejas é apenas um infante
Que recria o mundo a partir de suas mais tenras lembranças!
A partir do mundo sonhado, pensas conhecer o que teu intelecto não alcança
E julgando ser a realidade, tão empobrecida e inesperada
A concebe como um bruto diamante,
Que não pode ser lapidado,
Por um ser... ,
Reles ignorante.
Fausto:
Meu pedido é ousado,
Certamente não padeço de imaginação pusilânime
Meu desejo é apenas trabalhar demasiado
Sem sofrer da fadiga, dos nervos ou do sono infame!
Mefistófeles:
Seu pedido então está aceito
Seu sonho será realizado
Terá todo possível conhecimento
E para dentro de um mundo desconhecido será levado.
Mas fique admoestado,
Que por levar em frente essa vã filosofia
Acabará nas mais intensa anedonia
Julgaste-te maior e melhor por conta da proeza de seu intelecto
Tua razão gerou sonhos insípidos que toma por sublimes
Agora quere perscrutar no mesmo erro para alcançar na solidão
A realização de teus devaneios oníricos.
Mas diga-me, então, de uma vez?
Se já provara o amor em vida, porque insistir nesta insensatez?
De se tornar uma estrela ascendente num céu sombrio?
Fausto:
Sou maduro da vida. Sou como a cicatriz que torna cronológico o tempo
Deixei os meus rastros onde viví, mas ainda no que escreví
Sou corajoso o bastante para assumir meus erros e devaneios.
Contudo amor maior não encontrei,
Como aquele que tenho pelo conhecimento
Pelas páginas marcadas que norteiam no universo e no tempo
Os percalços dos pensadores iluminados e solitários
Cuja vida é:
Transformar letras em estrelas,
Versos em constelações,
Contemplar a solidão no precipício do abismo,
Sabendo que o infinito não termina aonde perde-se a visão.
Quero deixar meus rastos para os pensadores perdidos,
E dizer-lhes:
Há um caminho certo para os que comungam desse tipo de solidão.
Narrador:
Irrompe um clarão no céu
Uma pirâmide dourada surge
Milhões de estantes abotoadas livros
Todos os livros do mundo.
A insaciedade de Fausto urge
Fausto moribundo,
Se vê diante de todos os livros do mundo.
Palavras saltam à vista, pululam em sua mente
Tenta tocá-las, em vão
As palavras adentram um recipiente
Que outrora chamara de coração.
Toda a ação dura segundos infinitos,
E Fausto agora se vê munido
De todo o conhecimento, pelo homem, já produzido.
A pirâmide se apaga,
Mas Fausto ainda não está sozinho.
Mefistófeles:
Lestes todos os livros do mundo
Minha promessa a qual cumprida
Decidirá o que fazer da sua vida
Agora que volto para meu lar, no submundo.
Teu desejo fora realizado,
Contudo, para assim sentir-se, será um fardo
Ao qual carregará como escudo.
Ditas minhas últimas palavras, faço desta minha última visita
Cuidado com o que pedes,
Pois pode transformar-se numa coisa maldita.
Fausto:
Ao abismo retirei-me
Com todos os livros já produzidos
Arrogante me tornei,
E também sábio e impreciso,
Galguei o
s degraus do abismo,
Com todos os livros já produzidos
Da sobrecarga me livrei,
De mais saber não necessito,
Pois tudo agora sei.
Sozinho me tornei, gravitando em universo solipsista
Eis que então me admirei, ao ouvir sozinho minha voz
Agora se fazia eco, eco se ouvia:
Noutra dimensão ainda não preenchida.
Mestre em solidão me tornei,
Ignorante do meu destino,
Busquei alguém ao lado para contar do que sei,
Encontrei-me refletido, uma imagem distorcida
Espelho de sombras,
Só por mim pode ser visto
Repleto de mim e vazio,
Atravessei pelas mais profundas emoções
Não era Moisés, Era Dante
Abrindo o mar das dores que não afogam,
Divido entre o intelecto e as tão chamadas contradições
Que circulam pelo peito, enfraquecem os tendões.
Arrebatou-me o coração, chorei lágrimas de tormenta
E então compreendí, que a curiosidade é uma porta aberta
Aos caminhos da divagação, que conquanto for explicada
Só afasta das trevas as perguntas ainda não concebidas,
Pelo abismo chamado imaginação.
Paulo Santucci
Poema inspirado pelo livro "O Fausto",, de Goethe.